Um Conto Adolê

Categoria: TXTs
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Estudaram juntos por um semestre, um semestre e meio, não mais do que isso. Apesar de terem feito um trabalho no mesmo grupo, caminhado umas poucas vezes até o metrô e eventualmente sentado na mesma mesa no bar da esquina, não chegaram a trocar telefone nem nada disso e, apesar de terem se adicionado no ICQ, não posso dizer que se tornaram amigos. Depois que ele largou a faculdade e mudou de cidade chegaram a ficar muitos meses, talvez anos sem se ver, terem notícias ou mesmo lembrar um do outro. Até que um dia a tecnologia cumpriu seu papel e os “reaproximou”: tornaram-se amigos no Orkut. Não sei se ela achou ele ou se ele achou ela, sei apenas que trocaram uns poucos scraps, meia dúzia de papos furados no MSN e nada mais.

Então ele voltou a morar em São Paulo e num meio-dia qualquer eles se encontraram rapidamente e por acaso num restaurante árabe próximo tanto do trabalho dela quanto da casa dele. Tiveram um papo trivial e atropelado, ficaram de marcar uma cerveja qualquer dia desses e se despediram. Pelas próximas semanas, nenhuma cerveja ou mesmo palavra foi compartilhada por eles. Até que uma tarde ela o chamou no Gtalk para uma festa junina do pessoal da facú num sítio no interior. Ele achou a idéia ótima, seria legal reencontrar o pessoal, ainda mais em um sítio, mas de última hora, por algum motivo X ele não pôde ir, ou desistiu, mas, como ela havia passado seu telefone, achou válido ligar para informar que surgira um imprevisto e ele infelizmente não poderia comparecer à festa.

Apesar de nunca ter dito ou feito algo a respeito ele sempre a achou sexy e charmosa; sempre imaginou-a voraz, gulosa, até mesmo insaciável — certamente aqueles óculos disfarçavam um furacão louro louco de tesão: bastava falar as palavras certas, apertar corretamente o botão and have a good time. Além disso, pelo pouco que haviam interagido, dava pra sacar que a garota era inteligente, tinha bom gosto pra música, cinema e literatura; estilosa, simpática, dona de lindos olhos arrendodados, boca instigante, supersexy; baita pitéuzinho, fuck buddy potencial. Porém é muito provável — e até mesmo triste de se pensar — que ela não pensasse nada disso (ou mesmo algo vagamente similar) a respeito dele.

E mais uma vez mais o tempo passa e, mais uma vez — sem contar um frio, indireto e praticamente nulo contato via LinkedIn — a tecnologia os “aproxima”. Numa quente manhã de verão ele recebeu um email dizendo que ela estava seguindo-o — não no aclamado Twitter ou no onipresente Facebook —, a virtualidade da vez, cuja escolha inclusive estimulou o interesse dele, (re)ativou alguma memória e desejos esquecidos em relação à ela foi o MUBI — não o Museu da Bicicleta de Joinville ou mesmo o Museu da Bíblia, mas sim a rede social online para cinéfilos e (pseudo)cineastas; além do supracitado bom gosto, ela tinha um quê de cult que elevava consideravelmente seu nível de sex appeal.

E durante todo o dia, em momento algum ele pensou novamente nela. Soava o sino das 18 horas quando ele resolveu ir pra casa e, enquanto caminhava naquela quente tarde de janeiro, pensou que seria curioso se, por mero fruto do acaso, ele a encontrasse pelo caminho. Começou a visualizar toda uma situação, inclusive o diálogo que teriam, algo como “e aí, que coincidência a gente se encontrar! coincidência não, sincronicidade! coincidências não existem, são estratégias do acaso… ah é, você trabalha aqui do lado, né? e agora, ta indo onde? poxa, vamos então aproveitar que tá quente pacas e finalmente tomar aquela cervejinha?”, ela diria que acha uma ótima idéia, mas que precisava antes passar em casa trocar de roupa, colocar algo mais confortável, tirar o salto e coisas do tipo. sim, moro aqui perto, uns três quarteirões, ao lado do pão de açúcar. com uma amiga, mas ela ainda não voltou das férias. “numa dessas, se for viável e você não fizer questão do contrário, nós podemos comprar umas brejas no pão e tomar por lá mesmo, que tal? além de ser mais econômico, a gente fica mais de boa, faz unzinho… (você ainda fuma?), que achas? ela sorri, em silêncio pensa um pouco e, achando válido dar sorte ao azar, acha a idéia super-válida. Caminhariam um pouco conversando sobre o que andaram fazendo nos últimos anos, o que estão fazendo agora, falariam dos outros colegas de classe, do rumo cada um tomou e deste momento em diante, já comprando as cervejas, já estaria em curso o festival de hormônios produzidos pela potencial tensão sexual existente entre eles e, na sala do apartamento dela, quando as reações eletroquímicas estivessem praticamente se manifestando na forma de faíscas, estimulados e sensibilizados graças a uma certa dose de álcool e delta-9-tetrahidrocanabinol no sangue eles se pegariam com toda vontade contida nestes quase 10 anos desde que se conheceram, “nossa, como o tempo passa, né?” e teriam umas boas horas de sexo sincero e descompromissado, privilégio auto-concedido e compartilhado sem pudor, torrentes de prazer químico-energético, livre de bits, bytes ou perfis virtuais, apenas seus avatares urbanos num ato hedonista instintivo, animalesco. Em uma frase curta? “Gostoso pacas”.

Infelizmente, essa aventura de horas aconteceu em questão de minutos, exclusivamente no imaginário do protagonista desta estória. Mas o acaso é realmente um estrategista sacana e, subitamente saindo de uma banca de revistas ele a vê, tão sexy e charmosa quanto a imagem do seu avatar no MUBI. Passado o espanto, ele acelera o passo no intuito de se aproximar e quando juntos alcançam a esquina ele tem a confirmação de que sim, é ela que está ali parada ao seu lado. “Poxa, que curioso isso, tava pensando em ti agora há pouco. Sério mesmo! Nada demais, umas besteiras… quer mesmo? Será? Tá bom então! Vou dar uma resumida, mas era algo do tipo nós nos encontraríamos por acaso, começaríamos um papo, eu proporia uma cerveja, você toparia, desde que pudesse passar na sua casa aqui ao lado para trocar de roupa, colocar algo mais confortável. Sério, mudou? Aqui do lado? Nossa, que doidera… por acaso tem algum mercado próximo? Pão de Açucar?? Você tá brincando! Então, ao invés de sentar num bar para beber e conversar, nós compraríamos umas brejas no mercado pra tomar na sua casa. Papo vai, cerveja vem, um banzinha e voilà!, terminaríamos a noite consideravelmente chapados e pelados, com nossos corpos enroscados e fluídos trocados, uma coisa bem gostosa e freestyle. Foi isso que eu pensei… (ele fica meio sem jeito). Que que você acha da idéia?”

O telefone dela toca. “Oi gata! Tudo e contigo? Claro, tá de pé sim. Ok, até lá, bêjotxau! Viu, já tenho compromisso pra hoje. Mas a gente se fala outro dia, quem sabe? Agora preciso ir.” Eles se despedem. Ela entra na estação do metrô mais próxima, ele continua andando e seguindo-a no MUBI, ela o bloqueia no Facebook e eles nunca mais se encontrarão novamente.