Poema Escrito Numa Data Binária
Categoria: TXTs
Tags: poemas
01.
(pelas brumas do não-tempo,
antes mesmo da linguagem:
cadafalso)
no abismu não há cima,
não há baixo
não se sobe nem se desce
não há futuro não há passado
não-eu & não-você
assim como o mar
uma senhora nariguda,
com olhos de aves
como a vela, sua chama:
se reduz, recolhe, reluta
quase finda, mas
não se entrega
o fogo
o fogo
afago:
fagulha.
venta,
& o vento
espalha recibos & notas fiscais,
notas mentais
que queimam
os punhos dos párias
(risos)
guitarras
& você não existe mais
o vagalume quase se confunde
e crepita no crepúsculo
01.
millas & Miles después…
velas: o cosmos em cera
pavio : pal(h)etas
azulamarelescendo
fogocendo
fogo sendo
saliva sapeca borbulha:
o vinho o vento & a vela
três pontos de intersecção
diante da reflexão, um vira dois
um tango,
diálogos em francês
la ternura de los ojos rojos…
o vento, as folhas
o celular:
símbolo pós-chernobylico
o vento, o vinho
a sombra:
então, através do fogo
o homem vira deus
a chama da sabedoria
é o divino conhecimento
o amor: chocolate
luz sobre layers
latitudes, latifúndios
fogo & concreto
fumaça-objeto
dejeto
10.
(direto)
“bossal
o mundo é seu,
bossal!”
socibóide transrelutante
o gosto da chama
da fama,
da fama
o vento & o riso
ouriçam as marés
folhas: centenas, dezenas
milhares delas
por entre as relvas atlânticas, um buraco para o infinito
— (uma gostosa guerra de sentidos começa)…
