Palavras

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além de desenhar, outra coisa que sempre gostei é ler. quando criança e viciado em games, devorava revistas relacionadas ao tema. videogames e dinossauros. depois, por influência direta do meu irmão mais velho, foi a vez dos gibis de super-herói. “Wolverine nº13″, publicado pela Abril Jovem lá pelos idos de 1992, foi o primeiro que comprei. isso, somado à (bela) coleção de gibis Marvel e DC do meu irmão, foram minha primeira base teórica para interpretação de mundo.

logo depois, por volta dos 11 anos, possivelmente por culpa de uma professora chamada Vera Mello, comecei a me interessar por literatura, em especial poesia. ela era apaixonada por Fernando Pessoa e Chico Buarque e sempre trazia poemas e letras dos dois, além de Carlos Drummond e todo currículo de literatura da 5ª série. disso para começar a gostar de escrever foi um pulo — eu adorava quando era dia de fazer redação. ela, por sua vez, gostava — e incentivava — minhas redações malucas, muitas vezes não-lineares, quase experimentais. acho que ela foi minha professora por uns dois anos letivos, mas foi o suficiente para me mostar um novo mundo de possibilidades literárias.

por volta dos 15 anos, talvez um pouco menos, outro marco: o amigo Bráulio (é sério) me emprestou um livro divisor de águas na minha vida vivída até então: “O Elogio da Loucura“, livro escrito por Erasmo de Roterdã, publicado no ano de 1503. novamente minhas embrionárias visões de mundo sofreram uma tremenda metamorfose e mais uma vez eu passei a ver a vida de outra maneira.

já maior de idade — e responsável pelos meus atos segundo a lei do nosso país — sai da vida boa que é morar com os pais no interior e vim morar na capitar. e aqui, outra vez minhas concepções de realidade mudaram. o tamanho, as pessoas & o caos da cidade — tudo isso associado ao surgimento do que chamarei de “meu primeiro grande amor” — foram catalisadores importantes nessa fase do processo.

e foi justamente essa combinação implacável que gerou (ou despertou minha atenção para) uma enorme necessidade de me expressar através da palavra escrita. sim, necessidade: eu precisava escrever para não pirar. e a poesia foi a forma escolhida para isso acontecer. aceitação & rejeição são as duas faces de uma mesma moeda chamada Amor, que nos leva a picos de alegria & tristeza, melancolia, daquelas que beiram a depressão. e sei lá por que cargas d’água, num dia qualquer, muito provavelmente durante alguma aula maçante do curso de publicidade (que eu largaria poucos meses depois), peguei uma caneta e comecei a rabiscar meus pensamentos — idéias & palavras soltas numa folha de caderno.

tal ato me causou uma sensação boa e comecei a fazer isso com mais e mais frequência. foi uma verdadeira terapia. o processo de ver (e ler) meus pensamentos fora de mim, aprisionados numa folha de papel ou tela de computador, tornava mais fácil a compreensão (ou interpretação) dos seus significados. acho que foi por isso que nunca precisei recorrer a um psicólogo, psiquiatra, psicoqualquer coisa (exceto psicodélicos) até hoje.

por isso eu agradeço à literatura e à escrita: muito obrigado!, vocês me fizeram economizar muita grana em terapia.