Um Sufi & Um Assassino

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O álbum de estréia de Gonjasufi lançado este ano pela Warp Records é sem dúvida um oásis na estereotipada (e sinceramente ridícula) atual cena Hip Hop — deserto cheio de clones criados a partir de uma fórmula estético-conceito-comercial esdrúxula centrada no ego, baseada na glamourização do pimp lifestyle, da persona gangsta, sua grana, seus carrões & suas bitches.

“Deveria ser uma regra: se você ganha uma quantia de dinheiro, uma porcentagem isso deve servir para se conseguir água potável e coisas do tipo [shit, no original — termo inclusive muito usado por ele, coisa de rapper?, em entrevista concedida ao site The Quietus, da qual traduzo passagens como esta] para o resto do mundo”, responde quando questionado sobre o que acha do atual estado da música pop. “É frustante porque eu tenho filhos. (…) Você vê vários rappers por aí e tudo que eles estão falando é sobre dinheiro. E eles têm talento, sem dúvida.”

Gonjasufi é Sumach Ecks, rapper, MC, DJ e instrutor de yoga. Norte-americano, iniciou sua carreira no hip hop californiano no início dos anos 90 junto ao coletivo Masters Of The Universe. Durante a primeira década de 2000, ainda como Sumach lançou (até onde descobri) três álbuns. São discos que já indicam uma busca (gradual) por novos caminhos, ainda que possuam uma atmosfera mais próxima do que conhecemos como hip hop. Os ruídos, chiados e a estética lo-fi (os três álbuns foram gravados e lançados de forma independente) já estão presentes, mas a principal diferença que percebo é na forma de cantar, mais propriamente na voz de Ecks, que nesta nova encarnação apresenta um vocal mais sujo, crú, enfumaçado, empoeirado & irregular.

Gonjasufi ganhou notoriedade em 2008, ao cantar na faixa “Testament” no álbum Los Angeles de Flying Lotus. Agora, sob produção do próprio FlyLo juntamente à Mainframe e Gaslamp Killer, lança o álbum A Sufi and A Killer — certamente um dos melhores lançamentos do ano.

De difícil classificação, ao longo de suas 20 faixas divididas em pouco mais de 50 minutos, o álbum apresenta um universo/realidade/personalidade fragmentada, aleatória & incerta, porém auto-consciente e confiante — um espírito em busca do equilíbrio kármico — e isso faz toda diferença. Para compor o álbum, Ecks se isolou no deserto de Mojave (será que ele visitou Clutchy Hopkins por lá?) para sozinho enfrentar e expurgar seus demônios através da música.

O resultado são músicas distintas, anômalas & complementares, na qual seu vocal transita por entre delays, reverbs e outros efeitos, mesclando doces melodias à berros guturais numa mesma faixa. Assumidamente lo-fi (a um passo do no-fi em alguns momentos), Sumach nos apresenta uma espécie de diário, livro de rascunhos, na qual o artista expõe suas idéias, conflitos e possibilidades de solução, tudo misturado muitas vezes numa mesma página — idéias sobrepostas & caóticas, canções multilayers unindo a tradição e o misticismo oriental ao vazio espiritual/consumismo do ocidente, fazendo colagens com elementos aparentemente encontrados ao acaso. Se o disco fosse uma obra plástica, arrisco dizer que poderia ser a fusão da simultaneidade do Picasso cubista, com as pinceladas expressividade de Pollock e a sinceridade urbana dum Basquiat. “Eu acho que esta é uma sociedade que está se comendo viva.”, filosofa Ecks.

Nascido numa família cristã, Sumach teve contato com e estudou o Islamismo durante a faculdade. Desencanou dos dogmas fundamentalistas e se interessou pelo misticismo dos sufistas. Estudou ainda o Rastafari e os ensinamentos de Krshna no Bhagavad Gita. “Se eu não tivesse a música eu poderia ser um cara perigoso. É uma forma de canalizar toda essa frustação, dor e coisas do tipo.”

Dual, o disco transita por estilos musicais variados, oscilando entre luz & trevas, dúvidas & certezas, revelando diversos eus em busca de se expressarem, muitas vezes brigando entre si para ver quem fala mais alto, como na multivocalizada “Sheep”, conflito interno materializado em frequências sonoras numa das melhores e mais longa canção do disco (no presente caso meros quatro minutos).

Um novo paradigma, novas formas sonoras: transmúsica assustadora & assustada, criada na vastidão do deserto com todos seus fantasmas, antigos espíritos que de alguma maneira são captados pelo velho equipamento analógico utilizado por Sumach em suas gravações, trazendo algo atávico à música de Gonjasufi. Seu pós-hip hop ritualístico, conceitual e (às vezes) semi-abstrato, aliado à voz anasalada, crua, curiosa, muitas vezes rachada, projetada a partir do estômago — surgida em suas práticas iogues — cria uma musicalidade única, livre.

The Sufi and the Killer (quem seria esse killer do título? Gaslamp, que produziu o álbum, ou o próprio lado negro de Sumach?) é a trilha ideal para experimentos pelo deserto da imaginação — um encontro com derviches psicodélicos, hipnóticos cantos hindus, cítaras, guitarras & livres associações: balaio cósmico de informações retroprocessadas, nunca mastigadas, mas sim oferecidas a quem quiser (ao menos tentar) decifrá-las.

P.S.: se estiverem com sorte, arrisquem nos comentários: pode ser que algum espírito do deserto deixe cair uns links por lá.