Gil Scott-Heron is back!

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Tive uma grata surpresa nesta Quarta-feira de Cinzas ao chegar do almoço e descobrir que Gil Scott-Heron está de volta.

Scott-Heron algumas décadas atrás. Algum parentesco com o Rolo?

Scott-Heron algumas décadas atrás. Algum parentesco com o Rolo?

Para aqueles que não sabe de quem estou falando, Scott-Heron (Chicago, 1949) é — na minha modesta opinião — o maior poeta negro já surgido sobre a face da Terra. Também músico, romancista e — principalmente — ativista, escreveu seu primeiro livro “The Vulture” (em terras tupiniquins, “Abutre” — leitura altamente recomendada, um retrato da América negra no final dos anos 60) aos 19 anos, vindo a publicá-lo em 1970, mesmo ano em que lançou seu primeiro volume de poemas e o disco Small Talk at 125th & Lenox Ave, registro ao vivo de uma apresentação num clube localizado na esquina da Rua 125 (considerada a principal rua do Harlem) com a Avenida Lenox (também conhecido como Malcolm X Boulevard).

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Ao unir suas duas paixões — a Poesia e a Música — tornou-se um dos precursores do Spoken Word, gênero literário-musical no qual, apesar de acompanhamento musical, o foco é a voz falada ao invés da cantada. Por esse motivo, é considerado (juntamente com os Last Poets) o inventor do Rap (Rhythm and Poetry).

Depois ter lançado apenas um album de estúdio em quase três décadas (Spirits, de 1994 foi precedido por Moving Target, lançado em 1982), ele ressurge com um discaço composto por 15 faixas (7 novas canções, 3 covers e 5 interlúdios) distribuídos em poderosos 28 minutos — que podem parecer pouco, mas são suficientes para o recomeço de alguém que não tem tempo a perder.

Assim como Let it Bed (do também genial Arnaldo Baptista), I’m New Here é um disco que muitos achavam impossível ser lançado algum dia. O título do disco é muito inteligente, pois apesar dos 40 anos de carreira, seu (pseudo)hiato no último quarto de século (Scott-Heron passou muitos anos preso por diversos portes de drogas) tornou-o desconhecido para grande parte das pessoas que nasceram neste meio-tempo. O mundo mudou, a música mudou, seu país tem um presidente negro e esse disco chega provando que ele acompanhou estas mudanças.

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O disco foi produzido por Richard Russel (dono da XL Recordings, que, entre outros, lançou discos do White Stripes, Thom Yorke e Devendra Banhart) — que em 2006 o visitou na prisão, se apresentou, disse ser seu fã há mais de duas décadas e que gostaria de gravar um disco seu quando ele saísse da prisão. Em junho de 2007 Scott-Heron foi libertado, contratado por Russel e, em janeiro do ano seguinte, as gravações tiveram início em Nova Iorque, durando cerca de 12 meses.

É o Scott-Heron ou o Seu Madruga quando voltou de Acapulco?

E esse? É o Scott-Heron ou o Seu Madruga recém-voltado de Acapulco?

Em seus 28 minutos, o álbum é enorme, grandioso: Scott-Heron revisita seu passado, como se meditando sobre sua vida, utilizando elementos urbanos e contemporâneos, como o trip-hop e o downtempo, para falar sobre seu passado, sua solidão e seus erros, sem arrependimentos, sem pedir desculpas,mas amadurecido e consciente — é um disco que seria impossível de ter sido lançado em qualquer outro momento da sua carreira.

Apesar de altamente autobiográfico, Scott-Heron utiliza três covers em sua digressão pessoal. Dois deles são aparentemente díspares, paradoxais e, talvez por isso, essenciais à obra. A canção que dá título ao álbum é um deles, originalmente gravada por Bill Cahallan (sob o pseudônimo Smog no disco A River Ain’t Too Much to Love), um dos melhores compositores da nova geração do folk estadunidense. A meu ver, a frase “No matter how far wrong you’ve gone, you can always turn around” justifica a escolha desta canção. O segundo cover é também o primeiro single do álbum, “Me and the Devil”, faixa na qual a voz crua e rouca de Scott-Heron presta um impressionante tributo urbano ao mestre Robert Johnson e sua canção “Me and the Devil Blues”. O último cover é “I’ll Take Care of You”, de Bobby “Blue” Bland, clássica figura do blues até então desconhecida por mim.

Desta vez, Scott-Heron volta seu olhar crítico para si ao invés de observar as injustiças do mundo. Frases como “Out of 8 million people / I didn’t have a single friend” (em “New York is Killing Me”) e “Because it’s easier to run / Easier than staying and finding out you’re the only one / Who didn’t run” (em “Running”), associadas a uma audição atenta do disco (dever ser a sétima ou oitava vez que o escuto na sequência enquanto escrevo este post) revela um homem machucado, dolorido, porém mais sereno, humilde e vivo do que nunca, pronto para o que der e vier. E talvez seja isso que faça deste disco um dos — se não “o” — melhor da sua carreira.

Por essas e outras, obrigado e bem-vindo de volta, Gil.

P.S.: Ficou curioso para ouvir o disco? Quem sabe alguma alma caridosa não colocou o link nos comentários…