Fashion Rio, A Fiction Uma Ficção

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iniciei este texto durante minha estadia no Rio de Janeiro trabalhando no evento que o nomeia. deste ponto até a conclusão do mesmo, umas boas semanas, meses, se passaram. o ímpeto e a motivação mudaram, mas eu não queria disperdiçar alguns pensamentos aqui desenvolvidos. achei melhor postá-lo assim mesmo do que arquivá-lo ou jogar no lixo. as ilustrações que permeiam as partes foram feitas em terras cariocas, não necessariamente nesta ordem ou estado de consciência. obrigado.

A Ida

Eram quatro da manhã de uma noite fria de outono quando despertei após apenas duas horas de sono. da cama pro chuveiro, do chuveiro pra cozinha, uma hora depois — sob a proteção e os perigos duma belíssima & dourada lua cheia — embarcava rumo ao Rio de Janeiro como co-piloto de Thiago N. (doravante também nomeado “aquele cara da barbinha” ou simplesmente “barbinha”), motorista & parceiro de viagem favorito. missão: editar alguns vídeos que seriam registrados por Pedro B. para o site da Vogue RG.

Enquanto o dia amanhecia, apesar daquele cara da barbinha ter dormido apenas uma hora a mais do que eu, a viagem transcorreu tranquila. seis horas & duas rápidas paradas depois chegávamos ao município outrora conhecido por Estado da Guanabara. fazia sol quando aportamos no apartamento da prima do barbinha, nosso lar pelos próximos dias. O apê — atualmente habitado por Sérgio, figura quase sexagenária deveras simpática —, dava muito mais a sensação de casa do que prédio, não só por se localizar no primeiro dos três ou quatro andares de um pequeno edifício, mas também — se não, principalmente — por se encontrar no bairro da Urca.

A Urca é uma bairro localizado na zona sul do Rio de Janeiro, turisticamente famoso por atrações como seus dois morros (do Pão de Açucar e da Urca propriamente dito) e o Cassino da Urca (que, com a proibição dos jogos de azar em 1946, passou a ser sede da extinta TV Tupi). Além disso, é onde o Oceano Atlântico se encontra com a Baía de Guanabara. O bairro, com suas suas casas antigas, prédios baixos espalhados por ruas estreitas & super arborizadas, fruto não só da sua localização ao pé de morros como também — principalmente — do bom-senso das pessoas que contribuíram para o desenvolvimento do mesmo — possui um clima muito agradável, típico de cidades interioranas. Além de ser um dos únicos bairros da zona sul que não possui favelas, é o bairro carioca com menor taxa de criminalidade (praticamente nula), resultado da presença de um quartel do Exército.

Dia 01 – Mesmo com delay, sem muita revisão
Deixamos nossos pertences na Urca e partimos rumo ao Pier Mauá, onde o Fashion Rio acontece. Resgatamos Pedro B. & Kátia L., parceiros na empreitada pelo mundo da moda e, por indicação de Kátia almoçamos no delicioso Doce Delícia — a dica é a salada personalizada com quiche de queijo brie & damasco. Vários minutos & quilômetros depois lá estávamos os quatro na fila do credenciamento, na qual perdemos uma boa meia-hora graças aos eventuais equívocos e desorganização sempre presentes nesta etapa do processo.

De credenciais em mãos adentramos ao universo de fantasia dos “fashioneiros” (ótimo termo cunhado pelo barbinha após algumas horas de observação in loco). Quem me conhece sabe que nunca fui muito ligado ao mundo da moda, e por isso mesmo acho curioso esta ser a terceira vez na qual me encontro diretamente envolvido com ele. Na primeira vez, uns dois anos atrás, “desfilei” com outros não-modelos na São Paulo Fashion Week. A segunda vez, ano seguinte, mesmo evento, minha missão era subir fotos e vídeos num site. Mais curioso ainda é o fato de que nestas duas vezes, Barbinha Navas — este um ícone fashion desde sua aparição no site de moda da UOL — também estava presente (assim como Pedro B. e Kátia L. estavam na última).

Andamos de um lado para o outro num processo de reconhecimento de área. O ambiente é dominado por mulheres bonitas e homens afeminados; a pequena parcela de héteros presentes no evento parecia se concentrar na sala de imprensa. Pessoas bem vestidas, pessoas mal vestidas e pessoas espalhafatosamente vestidas completavam o cenário e circulavam à beira das águas marítimas do pier. Ainda na sala de imprensa, dezenas de pessoas mergulhadas em textos, fotos, vídeos e e-mails, tomando coca-cola, cafés de máquina e essas águas levemente gaseificadas (refrigerante de gente fresca). As mais saudáveis apresentavam maçãs ou água de verdade em suas mãos enquanto transitavam pelo constante blá-blá-blá do ambiente.

Eram cerca de 18 horas quando nos dirigimos para o camarim (backstage, para os fashioneiros) da marca de biquínis Salinas (a qual eu, como 90% das marcas presentes, nunca tinha ouvido falar). Muitas modelos, maquiadores, cabeleleiros, produtores e, mais do que tudo, pessoas com câmeras fotográficas e filmadoras. Todo frisson girava em torno da modelo Carol Trentini, uma loirinha bem bonitinha — mas não mais do que tantas outras que transitavam pelo camarim, pelo pier e pelas ruas da cidade, do país e do mundo. Marcelo D2, puxado pela mão por uma mulher com cara de produtora, fez uma rápida aparição no backstage — não me perguntem o por quê.

O ar-condicionado do ambiente estava incrivelmente forte e era visível o descontentamento climático em praticamente todos os presentes. Sua função era impedir o derretimento das maquiagens, cabelos e coisas do tipo. Ou pura sacanagem mesmo. A parte mais legal foi quando todas as modeletes ficaram de biquíni posando para as fotos — suas pernas magrelas e seus poros ouriçados me remeteriam à imagem de frangos depenados.

Ainda no primeiro dia, o melhor desfile na minha opinião foi, sem sombra de dúvidas, de uma marca — cujo nome não me lembro — cuja temática girava em torno da vida e obra do grande artista mexicano Roberto Gómez Bolaños. Com roupas inspiradas no figurino dos personagens criados pelo autor, o desfile se destacou por oferecer churros e suco de tamarindo ao público presente, por um momento transformando o pier carioca numa réplica de Acapulco.

Era quase meia-noite quando deixamos o local. A fome era grande e o cansaço maior ainda. Rumamos para casa na esperança de Sérgio, nosso anfitrião, ter feito a macarronada alho e óleo que ele havia citado pela manhã quando partíamos para a labuta. Leitores, imaginem a nossa alegria ao chegarmos e encontrá-lo sentado no sofá com o macarrão pronto para ser finalizado. Comemos e conversamos sobre diversos assuntos que giravam em torno do Rio de Janeiro, mais especificamente ao redor de suas construções e monumentos históricos, apoiados no livro “Guia de Roteiros do Rio Antigo”. Mesmo com o ótimo papo, quase três horas depois o corpo pediu arrego e partimos todos ao encontro de Morfeu.

Dia 02 – Enquanto isso, na Sala de Imprensa…
Com o vídeo da primeira pauta pronto, achei que teria mais tempo para me dedicar a este texto, uma suposta reportagem investigativo-subjetiva sobre o mundo fashion na capital  fluminense. Ledo engano: o segundo dia se resumiu à sala de imprensa & problemas técnicos. Compressors, encoders, codecs, firewires, card readers & afins foram as palavras-chaves de um dia que passou realmente rápido.

Como alcançar estados alterados de consciência de maneira rápida num lugar cheio de seguranças, rodeado por militares, no qual, ao contrário da sala de imprensa do SPFW, nem uma cervejinha é colocada à disposição daqueles que ficam até mais de meia-noite trabalhando? Desta maneira o trabalho se torna insalubre e talvez por isso as coberturas de moda durante o evento sejam, salvo parcas exceções, desinteressantes.

Ainda no quesito falta de bebida alcoólica, um alienígena que estava de passagem por ali me contou que a cervejaria Devassa (cuja fábrica se encontra em um município carioca com o curioso nome de Cachoeiras de Macacu, sem acento no último u em todos as páginas do Google salvo a da cervejaria) tentou disponibilizar suco de cevada fermentada durante o evento, mas a toda-poderosa Coca-Cola, uma das patrocinadoras do evento, vetou tal ação, entupindo as geladeiras com uma nova espécie da sua (péssima) bebida light.
Diante de tal situação, pouco tenho a falar a respeito dos desfiles do segundo dia, visto que mal pisei para fora da sala de imprensa, salvo para comer algumas mexericas e ver a (imensa) lua que, com toda sua beleza, começava a invadir o céu carioca. Não interagi muito com o pessoal da sala, fiquei na minha, por entre uma e outra conversão de arquivos, já que, apesar de estar eventualmente tendo que fazer as frentes de câmera, produtor, diretor, entre outras, vim vestindo o chapéu monetário de finalizador, não escritor, cronista ou coisa que os valha.

Como estes são processos que demandam tempo, dividi o que me sobrou deste entre observação antropológica & petiscos. Sim, petiscos, pois, assim como na lance da cerveja, a sala de imprensa do Fashion Rio não possui lanche, apenas conosquinhos. E, na condição de semi-vegetariano, as possibilidades diminuem ainda mais, muitas vezes se restringindo às frutas (ignoradas por boa parte dos presentes). Neste dia em especial, todo abrir de lata ouvido fez a imagem de uma cerveja estupidamente gelada piscar em minha mente; mas não, eram apenas coca-colas megazerolightplus e seus derivados.
Mas uma coisa que me deixou deveras encafifado foi um lance do estacionamento: deixa-se o veículo no pier, numa área ao lado da área do evento, mas curiosamente o portão que dá acesso ao mesmo fica fechado, deixando duas opções aos proprietários dos veículos e seus acompanhantes: pegar uma van “gratuita” (paga-se vinte reais/dia para deixar o carro num estacionamento na qual não há um funcionário após certa hora da noite) até a entrada do evento ou a caminhar cinco minutos à beira do viaduto, boa parte sem calçadas, até à mesma. Seria tão mais fácil abrir o portãozinho, mas vai saber. Depois de certa hora da noite também não tem van de volta, ou seja, gasta-se um táxi ou caminha-se debaixo do viaduto até o estacionamento (no nosso caso, com todo equipamento de trabalho). “Xinístro”, como diriam por aqui.
Hora de jantar. Mas onde e o quê comer numa sexta-feira à uma da manhã? Oras!, no Café Lamas, bar/restaurante inaugurado há 135 anos. Isso mesmo, um século três décadas e meia servindo o auto-intitulado melhor fillet mignon do rio até altas da noite. Pulei o fillet, mas experimentei os também famosos bolinhos de bacalhau e eles realmente justificam a fama. Gasta-se um dinheiro razoável, mas pode-se comer bem na noite carioca.

Já no silêncio da madrugada na Urca, um som desumano e assustador regularmente rasgava a noite: era o ronco do vizinho do primeiro andar, algo surpreendente mesmo para quem cresceu com um pai bem roncador. Sérgio, nosso anfitrião, fora para Niterói visitar os parentes que tinha em comum com Thi N., por isso a casa estava vazia quando chegamos. Mas o cansaço era maior e optamos por dormir ao invés de fazermos uma festa cheia de modeletes de topless. Até porque o som do ronco poderia traumatizar tão jovens garotas.

Neste dia (ou no seguinte), no almoço, fiz esse videozinho:

Dias 03 & 04 – Quando os tais dias da semana se mostram mero contrato social

Acordamos e fomos ao mercado. Legumes e verduras caros e em poucas opções, cinco reais um pacotinho com quatro alhos não muito bonitos. Arroz, lentilha, couve-flor, beterraba e Jimi Hendrix no talo pra água ferver melhor. Atrasados, comemos às pressas e partimos em direção ao pier. Barbinha me deixou lá e foi pra Niterói, mas quase lá teve que retornar à Urca resgatar a câmera que usaríamos para as entrevistas. Ops, falha grave da nossa parte.

Câmera em mãos, segunda pauta: “24 Horas com Laís Ribeiro – Top recordista de desfiles no Fashion Rio 2010”. Nossa missão era seguir a garota, registrá-la chegando no evento, desfilando, correndo de um camarim para o outro, fazendo maquiagem, cabelo, comendo, relaxando e o que mais pudesse ser interessante.

Nascida em Miguel Alves, norte do Piauí, Laís tem exatos um metro e oitenta de altura, vinte anos de idade e apenas um de carreira. Grande estaque da temporada, vive atualmente em Nova York, onde divide casa com uma modelo russa. Morena simpática, cumprida e de modos simples, possui traços que se aprimoram a cada olhada, que a tornam gradualmente mais bela. Possui o característico ar frágil da maior parte das modelos novas, parece porcelana fina prestes a quebrar, bastando para isso uma simples palavra ou mesmo olhar.

Solteira, mãe de um menino de dois anos, a garota é guerreira e vestiu 26 estilistas nesta temporada, desfilando para quase todas as marcas. A criança mora com a avó, mas em breve irá morar com ela em NY. Nos dias finais da maratona, nos camarins, seu cansaço era visível, mas segundo ela todo o esforço era válido e tinha como objetivo o futuro deles.

Por consequência da pauta, assisti ao desfile da marca Printing. Modelos em clima de deserto, envoltas em tecidos largos & esvoaçantes; panos preenchidos por tons terrosos (e uma ou outra estampa florida) lembrando a vestimenta dos beduínos.

No dia seguinte

Dentre as muitas peculiaridades do Rio de Janeiro, como um bom paulistano, o trânsito me foi objeto de contemplação analítica. A primeira coisa que me saltou foram os táxis, sua cor e seus hábitos. Para quem está acostumados aos veículos brancos & sem-graça de SP, chegar ao Rio e encontrar dezenas de amarelinhos por entre as faixas cariocas é no mínimo curioso. Por entre e sobre, já que boa parte deles se desloca com uma roda em cada pista — característica que, associada à sua supracitada cor — inviabiliza a não-associação entre eles e o famoso Pac-Man.

Outra coisa que salta ao olhar de um morador da Paulicéia em visita à Guanabara é a quantidade reduzida de motoqueiros; aquele som buzinfernal que permeia a trilha das grandes avenidas paulistas surge de vez em quando, em atos esporádicos & isolados. Em compensação, os motoristas de ônibus parecem todos que estão indo tirar a mãe da forca. Correm velozmente, fecham carros e rasgam por entre as faixas, como se o que estivessem transportando fossem frangos para o abate (não que frangos mereçam este tipo de tratamento).

Mas o mais interessante de tudo que observei foi que a maioria do motoristas em solo carioca para apenas quando a luz do semáforo fica azul. Porém, os semáforos deles não são preparados para isso, possuem apenas as mesmas três cores tradicionais, com a diferença de que vermelho quer dizer “de dia, dê uma olhadinha antes de passar; à noite, siga sem pestanejar”.

Completando o assunto trânsito, o sistema de sinalização a meu ver tem dois trunfos a se destacar e uma melhoria a se fazer: placas com nome de ruas que, além de iluminadas, contém uma breve explicação sobre quem lhe empresta o nome é uma idéia bacana; ficam faltando aquelas placas maiores sobre os semáforos com o nome da rua que ali cruza, pois mesmo acesas as placas cariocas exigem certa proximidade para serem lidas, o que muitas vezes atrapalha a movimentação de quem está seguindo coordenadas.

Chegamos ao nosso QG e ficamos sabendo sobre alguma festa em algum lugar na qual talvez rolassem alguns convites. Jantamos e começamos a beber algumas cervejas (eu mais do que  o barbinha, já que ele é o motorista da dupla). Conversávamos sobre os mais diversos assuntos quando aquele som estarrecedor mais uma vez rasgou o silêncio da Urca: era ele, o Roncador Maldito, ser abissal que se apossava toda noite do corpo do pobre vizinho do primeiro andar. Na tentativa de provar o que estou dizendo, tentei capturar tal som gutural com meu gravador de som do celular, mas a baixa fidelidade do aparelho transformou aquele estrondo num simples respirar a là Predador/Darth Vader.

Passavam das três da manhã quando resolvemos enfrentar a preguiça que nos invadia e saímos de casa rumo à tal balada, que estava acontecendo num local chamado Scalla, uma tradicional casa noturna carioca. Chegamos, pegamos os “VIPs” e entramos. Os tais vips davam acesso a um andar superior, que nada tinha de diferente dos outros exceto a altura — pra mim, convite vip-vip-mesmo é aquele que te permite no mínimo beber de graça; vip para transitar pelo espaço é mera tentativa de segregação.

Balada no mínimo bizarra. Desde meus 18 anos que eu não ia a um lugar como aquele: cheio, muito cheio, de pessoas iguais: bêbados bobos tentando puxar pelo braço garotas de plástico que desfilavam em meio à fumaça e a música ruim. E bota ruim nisso — um pop dance 90′s da pior qualidade. Pela primeira vez senti saudade daqueles hinos oitentistas que tanto renego — quase qualquer coisa seria melhor do que aquilo que estava tocando. Depois de meia-hora barbinha disse “vamos?”, ao que respondi “vamos, mas já que viemos aqui temos o dever antropológico de passar por ali”, apontando para o meio do andar mais inferior do ambiente. Cruzamos  — obviamente não sem sermos interrompidos graças à famigerada barba do meu companheiro de aventuras — e voltamos para a Urca, onde ficamos bebendo e proseando até quase sete da matina. Lembro que meu último pensamento a caminho do banheiro foi — aproveitando a rima de Black Alien — algo como “enquanto lá fora nasce outro dos domingos, aqui dentro chora Charles Mingus”.

Dias depois descobri que o Scalla é famoso pelo “gala gay” durante o carnaval e que a tal festa na qual fomos se chama “I Love Pop” — e estas duas informações me fizeram entender muita coisa daquela noite.

Outros dias seguintes

Acordamos atrasados, levamos marmita pro Fashion Rio, visitamos a Liza — que achou numa caçamba de entulho uma das coisas mais legais dos últimos tempos: uma carcaça de piano, que fica de pé encostada num canto da sala dela, propiciando ótimas experiências sonoras. Praticamente qualquer interação com as cordas (ele está sem teclas e deve ser tocado como uma espécie de harpa) produzem blems, blons, tarans y otros sonidos muy interessantes, dignos de películas lynchinianas; mas como já era tarde no dia em que a visitamos não pudemos incomodar muito os vizinhos.

Nos dias seguintes continuamos sendo sempre os últimos a deixar o pier, gravamos a última pauta no Spa dentro do hotel Fasano — muito chique e agradável, no qual, apesar de não termos ganhado massagens, fomos super bem tratados.

Nos dias seguintes, os motoristas do Rio continuaram me impressionando — limite de velocidade para eles era lenda desconhecida — e a urbanização carioca continuou me encantando cada dia mais. É incrível como o respeito para com os elementos espaciais antigos — tanto os humanos, como as as construções coloniais, quanto as naturais (mais especificamente as árvores e a vegetação como um todo) — cria uma nova forma de interagir com a cidade. Não que prédios e árvores seculares não tenham sido destruídos, mas isto aconteceu em escala muito menor do que pode ser observado em São Paulo. Caminhar por calçadas pavimentadas respeitando os seres vegetais ali presentes, visitar lugares como a Biblioteca Nacional, o Teatro Municipal e construções do gênero me fizeram refletir muito sobre a tal “modernização” pela qual a sociedade passou no século passado, principalmente a partir da sua segunda metade.

O rápido desenvolvimento financeiro-industrial por qual São Paulo passou fez (faz) muito dinheiro circular pela capital paulista — o que gera ganância, o quê, por sua vez, gera miopia & estupidez: a cidade foi praticamente reconstruída cerca de três vezes ao longo dos séculos XIX e XX, tendo sua história espacial toda destruída em nome do “progresso”. O rio Tietê é um ótimo (ou péssimo) exemplo disto: todo um ecossistema assassinado, um ponto turístico — e até mesmo uma via de transporte em potencial — destruído de maneira insensata, sem qualquer preocupação temporal — tanto com o passado quando com o futuro.

Assim como os casarões da Av. Paulista, alvos de diversas sabotagens realizadas com o intuito de abalar suas estruturas a ponto de os condenarem à destruição, permitindo assim a construção de horríveis caixas de concreto e metal (e posteriormente de vidros, espelhos e mais materiais bregas utilizados nas construções modernas). Hoje, restam a Casa das Rosas e mais uma ou duas construções antigas — estas envoltas em brigas judiciais entre empreiteiros querendo mais construções multimilionárias & desarmônicas e preservadores que tentam manter vivo o (pouco) que resta do espírito de uma época.

Este texto se alongou, o tempo dilatou e muito aconteceu entre a linha acima e esta; alguns pensamentos que aqui seriam abordados partiram, novos chegaram e nada mais disso existe. O Rio de Janeiro  — dependendo de onde se olha — continua lindo; o mundo fashion não.