Esquina
Categoria: TXTs
Tags: crônica : prosa
ângulo é o espaço em um plano formado pela abertura de duas semi-retas que possuem um origem comum, o vértice. o vértice é a esquina de um ângulo. estou no vértice de um ângulo de noventa graus. cada uma das semi-retas que o formam é uma linha temporal: tudo-que-aconteceu & tudo-que-acontecerá.
é simples: uma das semi-retas que o formam é composta por tudo o que já aconteceu e a outra por tudo que ainda acontecerá. a princípio, tal idéia pode parecer óbvia. até mesmo boba — talvez seja apenas mais uma falácia ego-geracional como tantas outras — e certamente não será a última. independente disso, tentarei esboçá-la em rápidas pinceladas.
tenho quase trinta anos, uma companheira, dois filhos, três gatos & vivi metade da minha vida offline, sem facebook. sem saudosismo, conheço expressões como “procura na barsa”, “vê nas amarelas” & afins. era tudo analógico, no máximo eletrônico. tirar foto e ver na hora, só com polaroid. presenciei mudanças bruscas ocorridas de maneira velozmente selvagem. mudanças no sentido abrangente do termo: fenômenos comportamentais, tecnológicos, naturais & tudo mais; clones, tsunamis, big brothers & câmeras digitais. Internet. ressaltando a falácia ego-geracional, as gerações posteriores à minha não experienciaram ou experienciarão isso, pois já nasceram no pós-web. grudados 24h em seus celulares, em games, e-mails ou twitter, somos a primeira geração de ciborgues.
o ritmo acelerado da vida, a crescente velocidade dos acontecimentos torna tudo efêmero. na era do real-time, seis horas atrás já é passado. e mesmo com tudo isso acontecendo, mesmo com meses passando como se fossem semanas, a impressão de dias iguais não para de crescer ⎯ por mais diferentes e cheio de novidades que eles sejam, continuam parecendo o mesmo. será que o acesso instantâneo à informação está nos tornando niilistas? ok, se faz necessário o distanciamento propiciado pelo passar do tempo para que isso ocorra, mas me parece que não há mais espaço para grandes feitos, para o surgimento de “gênios” e “movimentos”. na época da efemeridade, tudo é descartável, nada mais entra para a história, pois a história não mais é escrita, apenas tuitada.
paradoxalmente, o jornal de hoje vale por uma semana: os “assuntos do momento” são redundantes: escândalos políticos, guerras sem sentido, violência policial, desastres ecológicos. um é sequestrado, outro é deposto enquanto ali no meio algum lugar explode. o noticiário é uma extensão dos filmes hollywoodianos de ação. no caderno de cultura, idem: duas vezes ao ano surge “a nova esperança do rock” ou alguém “prestando homenagem/revisitando” o passado; sempre estréia uma peça “revolucionária” com show de luzes & gente pelada; ou ainda, um “artista subversivo de vanguarda” que expõe fotos de bifes fritos.
talvez essa esquina na qual nos encontramos seja o indício de que estamos num “intervalo”, um período de transição de proporções grandiosas — não me entendam como messiânico — mas basta analisar a história de como chegamos até aqui: a queda precede a ascensão, das ruínas novas sementes brotam. tal qual a fênix mitológica, talvez seja necessário renascer das cinzas.
ou não. o budismo (e até mesmo a física quântica) diz que a realidade é o que percebemos, é uma percepção subjetiva. talvez o fluxo ininterrupto de informações que nos chegam através do mundo online crie esta sensação de mudança & estagnação. as coisas sempre aconteceram como estão acontecendo agora, nós é que não ficávamos sabendo.
o ponto onde duas vias públicas se cruzam é conhecido por esquina — coisa que, dizem, Brasília não tem.
texto originalmente publicado na revista Gestão Pública e Desenvolvimento (Março/2011)

