Decupagem poética
Categoria: TXTs
Tags: making-of : poemas
Acredito na Arte enquanto processo.
Por isso, apesar de aceitá-la como algo concreto, considero-a intangível, pois a Arte em si não é algo que pode ser visto, tocado, apenas sentido. O que normalmente vemos e chamamos de Arte é o seu fruto, a materialização de um percurso traçado ou percorrido pelo artista. A “Obra de Arte”, seja ela um quadro, instalação, música, poema, filme ou qualquer outra manifestação artística, é o resultado de esforço e experiências teóricas, práticas e subjetivas do artista.
Muitas vezes, diante das mais diversas obras e situações ouvi questionamentos como “de onde o cara tirou inspiração pra isso?”, “como fulano concebeu tal obra?” e coisas do tipo. Eu mesmo, quando me deparo com obras que mexem profundamente com meu espírito, me pergunto “como alguém consegue chegar a isso?”.
Daí a importância do contexto para análise de uma obra de Arte. A época, o local, o momento e muitas outras variáveis estão diretamente ligadas ao fazer artístico. Vem daí o meu interesse pela vida, pela biografia de pessoas que admiro e respeito, pois muitas vezes ter ciência de fatos pessoais a respeito do autor e seu meio podem alterar a interpretação de uma obra.
Pessoalmente, algumas pessoas, ao lerem meus poemas me perguntam “de onde você tira essas coisas que você escreve?”. Refletindo a respeito disso, e como forma de gratidão por me geraram esta reflexão, resolvi decupar, de maneira sucinta e direta, meu processo de escrita poética.
Para isso, utilizei um texto já publicado aqui no site, intitulado “Poema Mau Humorado”. A seguir, um fac-simile do rascunho deste poema, tirado do meu caderno de anotações. As marcações numéricas servirão de guia durante a decupagem do mesmo.
1: frase dita por um amigo, Lucas Hungria, alguns dias antes, explicando o caminho de algum lugar para alguém com quem falava ao celular. Achei a frase genial e pedi para usá-la. Anotei em um papel que tinha no bolso e deixei-a lá, fermentando por uns dias.
2: a primeira frase é a síntese de uma idéia que tive ao perceber que muitas vezes, durante uma discussão (geralmente conjugal), utilizo a ironia como forma de defesa, para evitar ser reativo e dar continuidade a um círculo vicioso. as duas frases seguintes são resultado de imagens que vi enquanto pedalava em direção ao trabalho. Diferentemente do poema, vi a pomba estraçalhada na rua. Já a caneta realmente caiu do meu bolso numa faixa de pedestres; o sinal ficou verde, impossibilitando-me de recuperá-la. Tudo que pude fazer foi ficar em silêncio e vê-la ser destroçada pela roda de um carro qualquer.
3: durante a fase embrionária do poema, um grande amigo faleceu devido a um acidente de carro durante numa estrada chuvosa.
4: não me recordo de onde esta frase surgiu; provavelmente me veio aleatoriamente ao longo dos dias.
5: indo para o Sesc Vila Mariana, passei em frente a um caixa eletrônico ali ao lado e vi uma pessoa com seu cão dentro do mesmo.
6: também não me recordo direito de onde esta sequência surgiu, mas creio estar relacionada a algum vídeo, livro ou música que experienciei ao longo dos dias nos quais o poema ganhou vida. A seta indica que achei melhor mudar a frase de posição.
7: a sequência final foi a força motriz que deu início ao poema, pois eu estava realmente vivendo dias muito mau humorados, e estava consciente disso — e isso era tudo que eu podia fazer.
8: data de gestação do poema, do momento em que as primeiras peças foram reunidas até seu tratamento final.
9: título original do poema — ando numa fase de entitulá-los de acordo com a data/momento/situação no qual são feitos. Como podem ver, o título foi alterado na versão final do mesmo.
& assim o poema nasceu.
Este foi um exercício pessoal de análise criativa. Espero que dê uma clareada para quem já me perguntou “de onde vêm essas coisas que você escreve?”.

