Poema em homenagem à Roberto Piva

por bagadefente

(o poema a seguir foi escrito em fevereiro de doismil&6 na cidade de Curitiba, mais especificamente num boteco localizado no Largo da Ordem, na região central da capital paranaense. naquela tarde, passei num sebo e comprei alguns livros, entre eles um entitulado “Quizumba”, do poeta paulistano Roberto Piva. apesar de ter ouvido falar bastante a seu respeito, nunca tinha tido qualquer contato com sua obra e/ou vida. era a primeira edição do livro, estava em perfeito estado (para um sebo) e custava míseros três reais. comprei-o juntamente a outros livros e continuei caminhando pela cidade. parei em um bar e por ali fiquei por algumas horas, bebendo umas cervejas e tendo um primeiro contato com aqueles poemas que marcariam para sempre não só a minha pessoa, mas também minha maneira de encarar a poesia como um todo.
“maldito” e “marginal” eram termos associados ao poeta que chocou a comunidade literária da Paulicéia em milnovecentos&63 ao lançar seu primeiro livro, “Paranóia”, uma visão única & delirante da megalópole em todas suas possibilidades físico-simbólicas. fortemente influenciado pelos surrealistas, por Lautréamont, Murilo Mendes, Garcia Lorca e outros tantos cânones poéticos, Piva deixa uma obra epifanicamente poderosa, regada a desregramentos imagéticos & blasfêmias metafísicas. um dos primeiros homossexuais assumidos (talvez daí a forte verve erótico-sexual encontrada em seus poemas) e — reza a lenda — uma das primeiras pessoas a tomar LSD em São Paulo, Piva sofria de Mal de Parkinson há cerca de dez anos e, no último sábado, terceiro dia de julho de doismil&10, após quase 30 dias internado, morreu de falência múltipla dos órgãos.
no dia em que fiquei sabendo disso, resgatei do baú o poema que escrevi naquela tarde curitiboca — ainda sob efeito do transe poético causado pelo livro y otras cositas más — e, como uma singela forma de homenagem, compartilho-o aqui com vocês. quem quiser conhecer um pouco mais sobre Piva, pode dar uma lida neste pequeno perfil escrito pela jornalista Renata D’Elia, esta entrevista publicada em 2007 pela revista Trip ou ainda procurar qualquer um dos seus livros. muito obrigado e parta em paz, Piva).

Ditirambo perambula

(necas but beras)

I – quarta, 20&poucos dum fevereiro qualquer

o dia começa triste nas quentes lágrimas do chuveiro
— apenas um espanta-marasmo
para espantar os pensamentos matinais —
caminho: come pão bebe leite. caminha: bolha no pé.
analicríticas fílmicas densamente não-sorvidas;
decepções&mudanças&decepções.
apenas um filme, livros, para distração no centro sem peso, sem paixão. 1/2 dúzia (vejo agora que eram 4) por pouco mais de 13 dinheiro$. dentrestes 4, 1 Piva: quizumba-piva-marginal.

beber-s’-entorpecer-s’-enlouquecer-s’-esquecer-o-ser:
desejo de afogar-se num tsunami de cervejas lisérgicas.

no largo da ordem, um bar, umas beras: piva-poemas-baga.
por lá,
morenas, louras besuntadas em [filhos da] mães com celulares&celulites.

— eu também daria (quase) tudo para não (ter que) fazer nada, (não) tomar decisões — (monologou baga consigo mesmo).
queria apenas escrever por
anos&anos&anos&anos&anos&anos&anos&anos&anosanos&anos&anos&anos&anos&anos
&anos&anos&anos&anos&anos&anos&anos&anos&anos&anos&&anos&anos&anos
até s’esquecer das Letras, dos Sentidos, dos Sentados.

(h)ora(s) pombas!

II – virada de página

no más abdico d’existir en detrimento de su querer. no más miro la luna como miraba tus ojos. no más compreendo tu tédio, no entiendo mi tosquera. no, no / más(.) una cerveza y piva devorado.
[interbalo para Buster Keaton]
“ele se levanta, negocia seu crédito para mas tarde y paga.” En la cinemateca, la vontad, necesidad de ser extraño no paraba de crescer; un pedacito azucarado y pronto
[por volta das 15h o pontapé inicial é dado]

(II & ½ – en la misma pagina, 80min después)

as ações mais triviais começam a se tornar desafios. as ruas que sempre o confundiam se tornavam mais confusas/difusas.
voltar ao bar beber&squecer/esquecer os (a)braços dados pela Osório/Paulista, seus bustos.
apenas o desejo duma saia sentada à mesa para ver/ouvir/tocar. o vento vinha & trazia palavras; outro vento vinha & levava emoções (levou)
o telúrico tempo metafísico não condiz com um passível&possível escurecer do céu: chuva não é baderna, nuvem não é ilha.
meus sentidos — em arrepios — se dissipam.
o prédio do meio se desloca
(se descola) do fundo [Infinito] fora de foco. sol se vai, nuvem s’esvai. falar se torna desnecessário neste mundo dilatado: abertura às brechas bruscas.
[novamente alteração dos sentidos:
nuvens-cinzabrancas sobrepostas embrulhadas em plástico-bolha]
livros & proteína texturizada de soja-média & cerveja & palavras (montes) sobre a mesa. um pássaro pousa: parecer progredir, palavreia comigo: não m’entende & vai s’embora, sem perguntar nada ou dar chance de m’explicar (como sempre acontece). assim sendo, o pássaro perde no mínimo um bom-papo, no máximo loucos meses de penas voando.
um bobo — fardado — de botão no bolso: sobe/desce uma cancela (que só cancela a liberdade do pensamento)/ borbulhas de Byron borboleteiam.
& lá vem o anão, de pastas no braço pente na mão:

olhaí o anão!

III – é outra página, com outra idéia (com Vento)

elas espicham seus peitos empinam sua bunda
mas a mente / se perde na mais
pura merda profunda.

o vento na cancela a
cancelar a cancelar / cancela
o pensamento — em que vivo —
morre num olhar.
o vento venta até
rasgar / rasga o seio & o
desejo: um mundo aqui /
mundo acolá. o Vento /
me dá vontade de chorar.

antes do fim
da segunda cerveja
(re)vejo os ensinamentos de Bazin: misturo-o c/ canela em pó & extrato de maçã. me sinto um felino tosco / enrolando minha vida
(meus desejos) num
grand&bagunçado novelo de lã.

IV – poema confessional

tua mão
impede a minha
mão de te tocar;
tua indiferença
em meu cotidiano
há de influenciar.

o corujão envolve
os sonhos, de outro
tonto — que como eu —
vive a sonhar.
teu jeito amoroso
— com o meu tosco —
bem que desconfiei:
bons frutos não
podia dar.

o céu de nuvens cheio de cores
qu’eu não sei nomear;
mas as sombras
— todas elas —
levantam (conseguem)
todo peso todo luxo todo meu rancor carregar.

será qu’ela vem?
poderá cá comigo
parar & conversar?
ou pretende apenas conservar
aquele riso puro&mágico
de quem não quer
se machucar?
mais uma que passa
com medo de se arranhar…

a pequena nuvem-escura
cresceu
tomou novas formas
outras formas, s’expandiu
diferente do meu eu.

no hay peso, no hay glória
no hay mas nada
solo un peso en un
mirar, un pedazo
que un dia me irá faltar.

V – Pré-despedida do que já se foi

[no banheiro — pré-terceira — tudo passa a vibrar.]
sinto um peso / arrepios: sinto
leveza
em meu olhar. sinto os grande
brincos / da morena / balançar.
sinto a grande bagunça que fazem /
predestinados a arrumar.

um casal de gringos grogues a beber & soluçar: era isso qu’eu queria ser era assim qu’eu queria estar. pero no hay donde estar aunque yo fuera Clóvis Bornay; aunque yo fosse um ciego a llorar, sorri a mi lado Mojica Marins de tye-dye.

(Ditirambo perambula; necas but beras)

o ser-causante faz-se feliz da surpresa alheia. mientras tanto, fuera de díos, apenas um lugar para dormir, pero caliente. um cheiro, um choro: um algo que ninguém tenha lhe dito:
nobody le dito.
limbo cadavérico = extrato de morfina. um casal se beija, m’entristece: as portas estão fechadas. pessoas passam marchando sem dar chances ao futuro não planejado.
as escadas, os estados seguem trotando como quem escorre. Rui Barbosa tão grande tão vazia tão assim cheia de tristeza.
(no ônibus desejo a ti (me) mostrar os (s/m)eus caminhos). depois que te conheci / não tenho mais / pra onde ir: corro / fujo prum passado falso / que não tem mais onde existir. a Saudade — de tanta coisa — me dói. o amor entre o fruto a foto & o feto : um afogamento de sonhos dicróicos. minhas palavras são ridículas quando ditas.