Escond&scondE
Categoria: MOVs
Tags: curtas : experimental : videoart
(2010, HDV, 07’07″)
(se possível, veja em tela cheia e fones de ouvido)
sábado, 24 de julho de 2010, fim de tarde.
bioloja, sítio bahia, bairro demétria, botucatu, interior de sp, 235km da capital.
naquele final de semana, with a little help from my friends, eu conseguira romper a bolha cinza que permeia a querida paulicéia e desfrutar um pouco de ar puro & tempo livre na companhia de pessoas agradáveis & queridas. o que motivou esta curta viagem foi a oportunidade de conhecer o bairro demétria, ligeiramente afastado do centro de botucatu, surgido em torno do primeiro projeto de agricultura biodinâmica do país, a estância demétria.
pela tradicional hora do almoço, após indicação dada na bioloja, chegamos àgradável pousada capitaneada por uma simpática senhora que aparentava usar peruca. deixamos nossas coisas e, ainda sob indicação da bioloja, partimos atrás de comida. andamos um pouco por estradas de terra enfeitadas com uma curiosa vegetação que mescla características de mata nativa e cerrado, cenário este completado por pinheiros e eucalipitos. seguimos algumas placas com setas que indicavam um lugar chamado “é ali” até o texto delas mudar para “é aqui”. e lá, por entre galinhas, galos & pintinhos, encontramos uma deliciosa feijoada vegetariana com limonada e salada orgânica (sempre achei estranho dizer que tal alimento é “orgânico” — oras, todos o são!; isso me faz pensar a que ponto chegou a desconexão entre o homem e a natureza; é preciso distinguir alimentos produzidos de forma natural, sem a maléfica influência do capital canibal, dos produzidos à base de anabolizantes, agrotóxicos & outros tóxicos, que, sob esse prisma, realmente deixam de se tornar “orgânicos”).
muita salada, feijoada, limonada e até um delicioso doce-de-abóbora com côco depois, tiramos o time e fomos pro mato, explorar. rumamos para a estância demétria, o tal primeiro projeto de agricultura biodinâmica do país em torno do qual o bairro se formou, paramos o carro e começamos a explorar o espaço. talvez por ser fim de semana seguido por feriado municipal na segunda-feira, o local estava totalmente deserto, habitado apenas por simpáticos cães, galinhas de grande porte e características singulares, porquinhos-da-índia e uma tão vasta quanto diversa vegetação permeada por cactáceas. caminhamos por um tempo até avistarmos à uma certa distância dois ou três dos cerca de oitocentos habitantes do bairro, que por sua vez se encontra subdividido em diversos condomínios rurais.
o sol já se escondia atrás das árvores e introduzia à cena um velho vento gelado. decidimos voltar ao carro e mais uma vez visitar a bioloja com a missão de experimentar seus ultradesejados sorvetes caseiros. a bioloja, localizada no sítio bahia — braço da estância demétria para produção de laticínos, geléias, compotas, pães & afins — é o local onde parte dos destes produtos são comercializados. sorvetes e pãezinhos depois, estávamos aproveitando os últimos raios de sol em meio à vegetação quando algo me chamou àtenção. o que inicalmente imaginei serem lençóis brancos pendurados num varal eram na verdade uma espécie de capas plásticas penduradas num varal como se fossem lençóis brancos pendurados num varal. quase que por impulso saquei meu celular e comecei a me aproximar da cena, enquadrando-a.
porém, no meio do movimento, percebi que aquele dispositivo não era o mais adequado para tentar registrar aquela imagem de maneira funcional. acredito que imagens sejam formas tangíveis & até mesmo didáticas de se compartilhar memórias, lembranças. e, apesar de ser um adepto, defensor da baixa fidelidade em registros audiovisuais, existem momento & momentos. e este momento, esta memória, perderia muito da sua intensidade subjetiva (que a meu ver sempre é automatica e drasticamente prejudicada, em maior ou menor proporção, quando qualquer momento é registrado, pois parte da presença necessária para propiciar a sensação transcendental de unidade, integração sujeito-objeto, é transferida para o dispositivo utilizado para registro, seja ele uma câmera ou uma folha em branco — sempre penso nisso, mas a necessidade de expressão autoral (quase) sempre fala mais alto. e isto pode ser pensado como um “ato heróico”, já que o artista voluntariamente opta por diminuir a intensidade da sua experiência momentânea, muitas vezes aniquilando-a, em nome do registro, o qual ele almeja — novamente em maior ou menor intensidade — compartilhar, difundir, possibilitando à outros viverem aquela mesma experiência em outros espaço-tempos, seja num museu, cinema ou no conforto do seu lar, por vezes & vezes a fio à seu bel prazer.
diante de tudo isso, lembrei que minha companheira estava com sua câmera fotográfica, o que, como suporte para registro audiovisual, era certeza de uma imagem com muito mais resolução, definição e fidelidade do que meu tradicional companheiro de bolso & aventuras. de câmera em punho, me posicionei e preso àquela cena fiquei. foram cerca de dez minutos divididos em três ou quatro pontos de vista, na tentativa de cobrir aquele simples, simplesmente mágico momento, permeado por um contexto inenerrável de beleza envolvente, hipnótico & extasiante momento. só me dei conta e saí do transe depois de ser chamado algumas vezes para ir embora do local. o restante da viagem foi impecável, incluíndo maravilhosas pizzas, um pouco de vinho, cachoeiras & muita troca.
de volta à cinzenta, a primeira coisa que fiz foi copiar todo o material gravado, no intuito de fazer algo simples para tentar compartilhar aquele momento com o maior número possível de pessoas o mais rápido possível. foi aí que, sete dias depois, via twit de alguém fiquei sabendo de um concurso promovido pelo youtube chamado life in a day. a idéia é fazer um documentário longa-metragem utilizando material enviado pelos usuários do site, produzido pela produtora dos irmãos ridley e tony scott, dirigido por um tal “oscar-winning” kevin macdonald (one day in september, controverso documentário de 1999 que retrata o sequestro de atletas israelenses por terroristas palestinos durante as olimpíadas de munique em 1972 — e que, por um “a” não é homônimo ao canadense kevin mcdonald, integrante da sensacional trupe de humor kids in the hall), programado para estrear no festival de sundance em 2011.
os usuários foram instruídos a não atuar, encenar, nada do tipo. apenas a registrar em vídeo algum(s) momentos do seu dia, qualquer coisa, do mais cotidiano ao mais especial, fazer upload e aguardar a seleção do material, sendo todos os colaboradores selecionado creditados como co-diretores do filme. o grande lance é que apenas material gravado no dia 24 de julho poderia ser enviado até a data-limite 31 de julho. achei a idéia interessante e olhei no calendário. yeap, os pseudopanos no varal foram gravados no dia 24 de julho. sincronicidade, ou pelo menos um incentivo para editar logo aquele material e tirar mais essa obrigação auto-imposta do caminho.
montar o vídeo foi interessante. meu plano era apenas cortar as imagens e colocar o som de algum(s) amigo(s) músico(s) maluco(s). mutei os canais de audio do video, deixei o itunes em shuffle cortei colei cortei colei desfiz refiz e cerca de duas horas depois eu tinha um primeiro corte do filme. hora de achar a trilha. pausei o itunes, habilitei as tracks de audio, coloquei fone de ouvido, play: ao longo dos sete minutos do vídeo, de fundo, uma família (mães, crianças & tias) se divertem, conversam, brincam de esconde-esconde. o filme ganhara um novo sentido e estava pronto.
o processo todo durou cerca de dez horas, com pausas para me alimentar, brincar com o théo, greg smoke e mais. tanto que só consegui enviar o video nos 69 do segundo-tempo, (espero que) dentro do adicional concedido pelos idealizadores. foi engraçado acompanhar em real-time (noss)o desespero nos comments via youtube. todos estavam tendo problemas com seus videos, com o site e por aí vai. só consegui concluir o upload do vídeo por volta da meia-noit&onze. foram três horas para render, encodar e subir no site sete míseros minutos de material em 720p.
video enviado com sucesso. no dia seguinte, sem a pressão do relógio, fiz alguns ajustes e o finalizei.
analisando a obra depois de pronta, creio que ela seja novo exercício na linha de raciocínio (provavelmente) iniciada em poltergeist machine e bush from my window (que, acabo de descobrir, teve sua trilha sonora — cowboys from hell, do pantera — removida por violação aos “direitos autorais”. esse pessoal da WMC não conhece fair use?). são videos que consistem numa mescla de registro cru, não premeditado e espontâneo, iniciado e finalizado num reduzido período de tempo. algo latente, que precisa urgentemente ser compartilhado, emergência. no registrar e no assistir, envolvem também algo metafísico, de presença e (auto)observação.
somos constantementes bombardeados por anúncios, sobreposições, efeitos, imagens tridimensionais, estímulos sonoros e todo o caos sensorial propiciado pelo cotidiano numa metrópole pós-chernobyl. Escond&scondE é um passo em busca de uma arte (digamos) mais “zen”, um espaço para a fluência da imaginação do espectador. é fruto da análise indireta da obra de artistas como chris marker, apichatpong weerasethakul (eita!) e outros que trabalham com conceitos como memória, tempo, êxtase & afins; digo indireta por serem autores cuja obra propriamente dita conheço quase nada ou muito pouco, mas com os quais acredito compartilhar idéias assimiladas em textos e conversas à respeito dos mesmos. (sim, talvez isso soe um pouco estranho.)
nestas pesquisas, me deparei várias vezes com a obra transcendental style in film, livro publicado por paul schrader (dentre outras coisas roteirista de pérolas como taxi driver e a última tentação de cristo) em 1972. do livro, um pequeno trecho resume minha impressão em relação ao filme resultante desta pequena viagem (ao) interior:
“man and nature may be perpetually locked in conflict, but they are paradoxically one and the same.”
(homem e natureza podem estar perpetuamente em conflito, mas paradoxalmente eles são um e o mesmo.)
e como bônus àqueles que leram o texto até aqui (ou que apenas rolaram a barra até o final), fica o primeiro vídeo que enviei para o concurso, uma hora depois de ficar ciente de sua existência. gravado com celular, a idéia por trás dele também me veio posteriormente, na hora de inserir uma descrição para o mesmo, que acabou se tornando uma metáfora social:
“sociedade são pessoas usando máscaras, tentando alcançar um lugar ao sol”.

Comentários
Muito bonito…muito bonito…eu gostei..é..gostei Léo.
Viva…fiquei contente…profissionalizou…tá tudo encaixadinho…
Bjo com umas 19 saudades!