(se possível, veja em tela cheia, com fones de ouvido)
sábado, 24 de julho de 2010, fim de tarde.
bioloja, sítio bahia, bairro demétria, botucatu, interior de sp, 235km da capital.
naquele final de semana, with a little help from my friends, eu conseguira romper a bolha cinza que permeia a querida paulicéia e desfrutar um pouco de ar puro & tempo livre na companhia de pessoas agradáveis & queridas. o que motivou esta curta viagem foi a oportunidade de conhecer o bairro demétria, ligeiramente afastado do centro de botucatu, surgido em torno do primeiro projeto de agricultura biodinâmica do país, a estância demétria.
pela tradicional hora do almoço, após indicação dada na bioloja, chegamos àgradável pousada capitaneada por uma simpática senhora que aparentava usar peruca. deixamos nossas coisas e, ainda sob indicação da bioloja, partimos atrás de comida. andamos um pouco por estradas de terra enfeitadas com uma curiosa vegetação que mescla características de mata nativa e cerrado, cenário este completado por pinheiros e eucalipitos. seguimos algumas placas com setas que indicavam um lugar chamado “é ali” até o texto delas mudar para “é aqui”. e lá, por entre galinhas, galos & pintinhos, encontramos uma deliciosa feijoada vegetariana com limonada e salada orgânica (sempre achei estranho dizer que tal alimento é “orgânico” — oras, todos o são!; isso me faz pensar a que ponto chegou a desconexão entre o homem e a natureza; é preciso distinguir alimentos produzidos de forma natural, sem a maléfica influência do capital canibal, dos produzidos à base de anabolizantes, agrotóxicos & outros tóxicos, que, sob esse prisma, realmente deixam de se tornar “orgânicos”).
muita salada, feijoada, limonada e até um delicioso doce-de-abóbora com côco depois, tiramos o time e fomos pro mato, explorar. rumamos para a estância demétria, o tal primeiro projeto de agricultura biodinâmica do país em torno do qual o bairro se formou, paramos o carro e começamos a explorar o espaço. talvez por ser fim de semana seguido por feriado municipal na segunda-feira, o local estava totalmente deserto, habitado apenas por simpáticos cães, galinhas de grande porte e características singulares, porquinhos-da-índia e uma tão vasta quanto diversa vegetação permeada por cactáceas. caminhamos por um tempo até avistarmos à uma certa distância dois ou três dos cerca de oitocentos habitantes do bairro, que por sua vez se encontra subdividido em diversos condomínios rurais.
o sol já se escondia atrás das árvores e introduzia à cena um velho vento gelado. decidimos voltar ao carro e mais uma vez visitar a bioloja com a missão de experimentar seus ultradesejados sorvetes caseiros. a bioloja, localizada no sítio bahia — braço da estância demétria para produção de laticínos, geléias, compotas, pães & afins — é o local onde parte dos destes produtos são comercializados. sorvetes e pãezinhos depois, estávamos aproveitando os últimos raios de sol em meio à vegetação quando algo me chamou àtenção. o que inicalmente imaginei serem lençóis brancos pendurados num varal eram na verdade uma espécie de capas plásticas penduradas num varal como se fossem lençóis brancos pendurados num varal. quase que por impulso saquei meu celular e comecei a me aproximar da cena, enquadrando-a.
porém, no meio do movimento, percebi que aquele dispositivo não era o mais adequado para tentar registrar aquela imagem de maneira funcional. acredito que imagens sejam formas tangíveis & até mesmo didáticas de se compartilhar memórias, lembranças. e, apesar de ser um adepto, defensor da baixa fidelidade em registros audiovisuais, existem momento & momentos. e este momento, esta memória, perderia muito da sua intensidade subjetiva (que a meu ver sempre é automatica e drasticamente prejudicada, em maior ou menor proporção, quando qualquer momento é registrado, pois parte da presença necessária para propiciar a sensação transcendental de unidade, integração sujeito-objeto, é transferida para o dispositivo utilizado para registro, seja ele uma câmera ou uma folha em branco — sempre penso nisso, mas a necessidade de expressão autoral (quase) sempre fala mais alto. e isto pode ser pensado como um “ato heróico”, já que o artista voluntariamente opta por diminuir a intensidade da sua experiência momentânea, muitas vezes aniquilando-a, em nome do registro, o qual ele almeja — novamente em maior ou menor intensidade — compartilhar, difundir, possibilitando à outros viverem aquela mesma experiência em outros espaço-tempos, seja num museu, cinema ou no conforto do seu lar, por vezes & vezes a fio à seu bel prazer.
diante de tudo isso, lembrei que minha companheira estava com sua câmera fotográfica, o que, como suporte para registro audiovisual, era certeza de uma imagem com muito mais resolução, definição e fidelidade do que meu tradicional companheiro de bolso & aventuras. de câmera em punho, me posicionei e preso àquela cena fiquei. foram cerca de dez minutos divididos em três ou quatro pontos de vista, na tentativa de cobrir aquele simples, simplesmente mágico momento, permeado por um contexto inenerrável de beleza envolvente, hipnótico & extasiante momento. só me dei conta e saí do transe depois de ser chamado algumas vezes para ir embora do local. o restante da viagem foi impecável, incluíndo maravilhosas pizzas, um pouco de vinho, cachoeiras & muita troca.
de volta à cinzenta, a primeira coisa que fiz foi copiar todo o material gravado, no intuito de fazer algo simples para tentar compartilhar aquele momento com o maior número possível de pessoas o mais rápido possível. foi aí que, sete dias depois, via twit de alguém fiquei sabendo de um concurso promovido pelo youtube chamado life in a day. a idéia é fazer um documentário longa-metragem utilizando material enviado pelos usuários do site, produzido pela produtora dos irmãos ridley e tony scott, dirigido por um tal “oscar-winning” kevin macdonald (one day in september, controverso documentário de 1999 que retrata o sequestro de atletas israelenses por terroristas palestinos durante as olimpíadas de munique em 1972 — e que, por um “a” não é homônimo ao canadense kevin mcdonald, integrante da sensacional trupe de humor kids in the hall), programado para estrear no festival de sundance em 2011.
os usuários foram instruídos a não atuar, encenar, nada do tipo. apenas a registrar em vídeo algum(s) momentos do seu dia, qualquer coisa, do mais cotidiano ao mais especial, fazer upload e aguardar a seleção do material, sendo todos os colaboradores selecionado creditados como co-diretores do filme. o grande lance é que apenas material gravado no dia 24 de julho poderia ser enviado até a data-limite 31 de julho. achei a idéia interessante e olhei no calendário. yeap, os pseudopanos no varal foram gravados no dia 24 de julho. sincronicidade, ou pelo menos um incentivo para editar logo aquele material e tirar mais essa obrigação auto-imposta do caminho.
montar o vídeo foi interessante. meu plano era apenas cortar as imagens e colocar o som de algum(s) amigo(s) músico(s) maluco(s). mutei os canais de audio do video, deixei o itunes em shuffle cortei colei cortei colei desfiz refiz e cerca de duas horas depois eu tinha um primeiro corte do filme. hora de achar a trilha. pausei o itunes, habilitei as tracks de audio, coloquei fone de ouvido, play: ao longo dos sete minutos do vídeo, de fundo, uma família (mães, crianças & tias) se divertem, conversam, brincam de esconde-esconde. o filme ganhara um novo sentido e estava pronto.
o processo todo durou cerca de dez horas, com pausas para me alimentar, brincar com o théo, greg smoke e mais. tanto que só consegui enviar o video nos 69 do segundo-tempo, (espero que) dentro do adicional concedido pelos idealizadores. foi engraçado acompanhar em real-time (noss)o desespero nos comments via youtube. todos estavam tendo problemas com seus videos, com o site e por aí vai. só consegui concluir o upload do vídeo por volta da meia-noit&onze. foram três horas para render, encodar e subir no site sete míseros minutos de material em 720p.
video enviado com sucesso. no dia seguinte, sem a pressão do relógio, fiz alguns ajustes e o finalizei.
analisando a obra depois de pronta, creio que ela seja novo exercício na linha de raciocínio (provavelmente) iniciada em poltergeist machine e bush from my window (que, acabo de descobrir, teve sua trilha sonora — cowboys from hell, do pantera — removida por violação aos “direitos autorais”. esse pessoal da WMC não conhece fair use?). são videos que consistem numa mescla de registro cru, não premeditado e espontâneo, iniciado e finalizado num reduzido período de tempo. algo latente, que precisa urgentemente ser compartilhado, emergência. no registrar e no assistir, envolvem também algo metafísico, de presença e (auto)observação.
somos constantementes bombardeados por anúncios, sobreposições, efeitos, imagens tridimensionais, estímulos sonoros e todo o caos sensorial propiciado pelo cotidiano numa metrópole pós-chernobyl. Escond&scondE é um passo em busca de uma arte (digamos) mais “zen”, um espaço para a fluência da imaginação do espectador. é fruto da análise indireta da obra de artistas como chris marker, apichatpong weerasethakul (eita!) e outros que trabalham com conceitos como memória, tempo, êxtase & afins; digo indireta por serem autores cuja obra propriamente dita conheço quase nada ou muito pouco, mas com os quais acredito compartilhar idéias assimiladas em textos e conversas à respeito dos mesmos. (sim, talvez isso soe um pouco estranho.)
nestas pesquisas, me deparei várias vezes com a obra transcendental style in film, livro publicado por paul schrader (dentre outras coisas roteirista de pérolas como taxi driver e a última tentação de cristo) em 1972. do livro, um pequeno trecho resume minha impressão em relação ao filme resultante desta pequena viagem (ao) interior:
“man and nature may be perpetually locked in conflict, but they are paradoxically one and the same.”
(homem e natureza podem estar perpetuamente em conflito, mas paradoxalmente eles são um e o mesmo.)
e como bônus àqueles que leram o texto até aqui (ou que apenas rolaram a barra até o final), fica o primeiro vídeo que enviei para o concurso, uma hora depois de ficar ciente de sua existência. gravado com celular, a idéia por trás dele também me veio posteriormente, na hora de inserir uma descrição para o mesmo, que acabou se tornando uma metáfora social:
“sociedade são pessoas usando máscaras, tentando alcançar um lugar ao sol”.
Em junho de 2010, durante uma série de shows pela Europa, Monique Maion e sua banda — Maurício Biazzi (Patife Band), Ladislau Kardos (Mamma Cadela) e Fernando Coelho (Seychelles) — acharam um tempinho e, em Londres, gravaram um EP com 04 músicas inéditas.
Ao longo de um mês de viagem, bastante material visual foi produzido: foto-sequências feitas por Daniel Nogueira de Lima, takes da Mon cantando — feitos por Coelho já pensando num possível videoclipe —, diversos registros de shows e um monte de vídeos turístico-pessoais feitos por todos lá presentes.
De volta ao Brasil, Mon me procurou e me ofereceu uma missão: transformar todo esse material — cerca de 25Gb de fotos & vídeos nas mais variadas qualidades & formatos — em um videoclipe para a música “I Killed a Man”, de autoria dela com Rodrigo Fonseca (também do Mamma Cadela).
Com dois agravantes: eu tinha (quase) uma semana de prazo. e liberdade total para fazer o que eu quisesse; ou melhor: conseguisse.
É óbvio que eu aceitei a missão (ainda mais depois de ter meu orçamento aprovado). =)
Com todo material em mãos, sem ter idéia do que fazer, comecei o longo & árduo processo de criação audiovisual. levei mais de um dia apenas para conseguir converter todos os vídeos, deixando-os com o mesmo codec, resolução, aspect ratio & coisas afins. esta etapa concluída, fui pra próxima: syncar os vídeos no qual ela cantava a música com a versão ainda sem mix da faixa. nisso, dois dos (quase) sete dias que eu tinha já haviam se passado. diante desta realidade, pedi auxílio ao parceiro Pozzitrev, que se encarregou de montar as foto-sequências e fazer experimentos cromáticos com os vídeos.
Tudo esquematizado, hora da diversão: começar a cortar, colar, cortar, colar: montar o vídeo propriamente dito. fritando com todo aquele materia na minha timeline, foi aí que visualizei o óbvio: a incrível possibilidade de aplicar a linha técnico-conceitual que permeia meu trabalho autoral, a “Vanguarda do Retrocesso”, que (resumidamente) consiste na utilização de material audiovisual — preferencialmente de baixa fidelidade — (se possível) gravado a esmo, sem concepções prévias — materiais de arquivo também são bem-vindos. este material deve ser tratado para adquirir aspecto de suportes “obsoletos”, como Super-8 e VHS. é possível também fazer o caminho inverso: gravar com estes suportes e trabalhar as imagens posterioemente, integrando-as a novos elementos através de sofisticadas técnicas de composição digital.
E assim foi: em dois dias fechei o primeiro corte e comecei a brincar de “destruir” as imagens. testes pra cá, testes pra lá e voilà!, eu tinha um caminho a seguir. curiosamente, semanas antes deste lance de videoclipe surgir, eu havia pedido — sem nenhum motivo específico — para um amigo que estava nos EUA me trazer uma placa para captura de vídeo analógica e, por causa da tal sincronicidade existente no universo, ele me ligou bem no momento em que eu quebrava a cabeça para simular (digital e realisticamente) a textura dos antigos VHS, dizendo que havia chegado e trazido as encomendas.a
Dai em diante foi só diversão. resgatei das profundezas de uma caixa empoeirada um antigo VCR, que misteriosamente funcionou sem maiores problemas. input pra cá, output pra lá, play, rec, foi. voltei pra montagem, acrescentei alguns videos feitos com celular do meu acervo pessoal pra usar como texturas, horas e horas de after effects, testes com o VCR e, nos 47 do segundo tempo, o vídeo estava pronto.
Agradeço a todos os envolvidos, colaboradores — em especial Igor Sales, Bruno Pozzi e Guilherme Turri — e, principalmente, à Monique Maion pela confiança. e ao Caveira, pelas ótimas imagens que tornaram o trabalho muito mais divertido!
Deu um baita trampo, mas confesso que fiquei orgulhoso do resultado.
iniciei este texto durante minha estadia no Rio de Janeiro trabalhando no evento que o nomeia. deste ponto até a conclusão do mesmo, umas boas semanas, meses, se passaram. o ímpeto e a motivação mudaram, mas eu não queria disperdiçar alguns pensamentos aqui desenvolvidos. achei melhor postá-lo assim mesmo do que arquivá-lo ou jogar no lixo. as ilustrações que permeiam as partes foram feitas em terras cariocas, não necessariamente nesta ordem ou estado de consciência. obrigado.
A Ida
Eram quatro da manhã de uma noite fria de outono quando despertei após apenas duas horas de sono. da cama pro chuveiro, do chuveiro pra cozinha, uma hora depois — sob a proteção (e os perigos) de uma belíssima & dourada lua cheia — embarcava rumo ao Rio de Janeiro como co-piloto de Thiago N. (aka “aquele cara da barbinha”), motorista & parceiro de viagem favorito. missão: editar alguns vídeos que seriam registrados por Pedro B. para o site da Vogue RG.
Enquanto o dia amanhecia, apesar do barbinha ter dormido apenas uma hora a mais do que eu, a viagem transcorreu tranquila. seis horas & duas rápidas paradas depois chegávamos ao município outrora conhecido por Estado da Guanabara. fazia sol quando aportamos no apartamento da prima do barbinha, nosso lar pelos próximos dias. o apê — atualmente habitada por Sérgio, figura quase sexagenária, muitíssimo simpática —, dava muito mais a sensação de casa do que prédio, não só por se localizar no primeiro dos três ou quatro andares de um pequeno edifício, mas também — se não, principalmente — por se encontrar no bairro da Urca.
A Urca é uma bairro localizado na zona sul do Rio de Janeiro, turisticamente famoso por atrações como seus dois morros (do Pão de Açucar e da Urca propriamente dito) e o Cassino da Urca (que, com a proibição dos jogos de azar em 1946, passou a ser sede da extinta TV Tupi). Além disso, é onde o Oceano Atlântico se encontra com a Baía de Guanabara. O bairro, com suas suas casas antigas, prédios baixos espalhados por ruas estreitas & super arborizadas — fruto da sua localização ao pé dos morros e, principalmente, do bom-senso das pessoas que contribuíram para o densevolvimento do bairro — possui um clima muito agradável, típico de cidades interioranas. Além de ser um dos únicos bairros da zona sul que não possui favelas, é o bairro carioca com menor taxa de criminalidade (praticamente nula), resultado da presença de um quartel do Exército.
Dia 01 – Mesmo com delay, sem muita revisão
Deixamos nossos pertences na Urca e partimos rumo ao Pier Mauá, onde o Fashion Rio acontece. Resgatamos Pedro B. & Kátia L., parceiros na empreitada pelo mundo da moda, e por indicação de Kátia almoçamos no delicioso Doce Delícia — a dica é a salada personalizada com quiche de queijo brie & damasco. minutos & quilômetros depois lá estávamos os quatro na fila do credenciamento — na qual perdemos uma boa meia-hora graças aos eventuais equívocos e desorganização sempre presentes neste momento.
De credenciais em mãos, adentramos ao universo de fantasia dos “fashioneiros” (ótimo termo cunhado por Thi N. após poucas horas de observação in loco). Quem me conhece sabe que nunca fui muito ligado ao mundo da moda, e por isso mesmo acho curioso esta ser a terceira vez na qual me encontro diretamente envolvido com ele. Na primeira vez, uns dois anos atrás, “desfilei” com outros não-modelos na São Paulo Fashion Week; na segunda, ano seguinte, mesmo evento, minha missão era subir fotos e vídeos num site. Mais curioso ainda é o fato de que nestas duas vezes, Barbinha Navas — este um ícone fashion desde sua aparição no site de moda da UOL — também estava presente (assim como Pedro B. e Kátia L. estavam na última).
Andamos de um lado para o outro num processo de reconhecimento de área. O ambiente é dominado por mulheres bonitas e homens afeminados; a pequena parcela de héteros presentes no evento parecia se concentrar na sala de imprensa. Pessoas bem vestidas, pessoas mal vestidas e pessoas espalhafatosamente vestidas completavam o cenário e circulavam à beira das águas marítimas do pier. Ainda na sala de imprensa, dezenas de pessoas mergulhadas em textos, fotos, vídeos e e-mails, tomando água levemente gaseificada, refrigerantes de cola e cafés de máquina. As mais saudáveis apresentavam maçãs ou água de verdade em suas mãos enquanto transitavam pelo ambiente no qual o blá-blá-blá é constante.
Eram cerca de 18 horas quando nos dirigimos para o camarim (backstage, para os fashioneiros) da marca de biquínis Salinas (a qual eu, como 90% das marcas presentes, nunca tinha ouvido falar). Muitas modelos, maquiadores, cabeleleiros, produtores e, mais do que tudo, pessoas com câmeras fotográficas e filmadoras. Todo frisson girava em torno da modelo Carol Trentini, uma loirinha bem bonitinha — mas não mais do que tantas outras que transitavam pelo camarim, pelo pier e pelas ruas da cidade, do país e do mundo. Marcelo D2, puxado pela mão por uma mulher com cara de produtora, fez uma rápida aparição no backstage — não me perguntem o por quê.
O ar-condicionado do ambiente estava incrivelmente forte e era visível o descontentamento climático em praticamente todos os presentes. Sua função ou era impedir o derretimento das maquiagens, cabelos e coisas do tipo, ou pura sacanagem mesmo. A parte mais legal foi quando todas as modelos ficaram de biquini posando para as fotos — suas pernas magrelas e seus poros ouriçados me remeteram à imagem de frangos depenados.
Ainda no primeiro dia, o melhor desfile na minha opinião foi, sem sombra de dúvidas, de uma marca — cujo nome não me lembro — cuja temática girava em torno da vida e obra do grande artista mexicano Roberto Gómez Bolaños. Com roupas inspiradas no figurino dos personagens criados pelo autor, o desfile se destacou por oferecer churros e suco de tamarindo ao público presente, por um momento transformando o pier carioca numa réplica de Acapulco.
Era quase meia-noite quando deixamos o local. A fome era grande e o cansaço maior ainda. Rumamos para casa na esperança de Sérgio, nosso anfitrião, ter feito a macarronada alho e óleo que ele havia citado pela manhã quando partíamos para a labuta. Imaginem a nossa alegria quando lá chegamos e o encontramos sentado no sofá com o macarrão pronto para ser finalizado. Comemos e conversamos sobre diversos assuntos que giravam em torno do Rio de Janeiro, mais especificamente ao redor de suas construções e monumentos históricos, apoiados no livro “Guia de Roteiros do Rio Antigo”. Mesmo com o ótimo papo, quase três horas depois o corpo pediu arrego e eu fui ao encontro de Morfeu.
Dia 02 – Enquanto isso, na Sala de Imprensa…
Com o vídeo da primeira pauta pronto, achei que teria mais tempo para me dedicar a este texto, uma suposta reportagem investigativo-subjetiva sobre o mundo fashion na capital fluminense. Ledo engano: o segundo dia se resumiu em sala de imprensa & problemas técnicos. Compressors, encoders, codecs, firewires, card readers & afins foram as palavras-chaves num dia que passou deveras rápido.
Como alcançar estados alterados de consciência de maneira rápida num lugar cheio de seguranças, rodeado por militares, no qual, ao contrário da sala de imprensa do SPFW, nem uma cervejinha é colocada à disposição daqueles que ficam até mais de meia-noite trabalhando? Desta maneira o trabalho se torna inegavelmente insalubre e talvez por isso as coberturas de moda durante o evento sejam, salvo exceções, desinteressantes.
Ainda no quesito falta de bebida alcoólica, um alienígena que estava de passagem por ali me contou que a cervejaria Devassa (cuja fábrica se encontra em um município carioca com o curioso nome de Cachoeiras de Macacu, sem acento no último u em todos os sites do google, exceto no da cervejaria) tentou disponibilizar suco de cevada fermentada durante o evento, mas a toda-poderosa Coca-Cola, uma das patrocinadoras do evento, vetou tal ação, entupindo as geladeiras com uma nova espécie da sua bebida light.
Diante de tal situação, pouco tenho a falar a respeito dos desfiles do segundo dia, visto que mal pisei para fora da sala de imprensa — salvo para comer algumas mexericas e ver a (imensa) lua que, com toda sua beleza, começava a invadir o céu carioca. Não interagi muito com o pessoal da sala, fiquei na minha, por entre uma e outra conversão de arquivos, já que, apesar de estar eventualmente tendo que fazer as frentes de câmera, produtor, diretor, entre outras, vim vestindo o chapéu monetário de finalizador, não escritor, cronista ou coisa do gênero.
Como estes são processos que demandam tempo, dividi o que me sobrou deste entre observação antropológica & petiscos. Sim, petiscos, pois, assim como na lance da cerveja, a sala de imprensa do Fashion Rio não possui lanche, apenas conosquinhos. E, na condição de semi-vegetariano, as possibilidades diminuem ainda mais, muitas vezes se restringindo às frutas (ignoradas por boa parte dos presentes). Neste dia em especial, todo abrir de lata ouvido fez a imagem de uma cerveja estupidamente gelada piscar em minha mente; mas não, eram apenas coca-colas megazerolight2 e seus derivados.
Mas uma coisa que me deixou deveras encafifado foi um lance do estacionamento: deixa-se o veículo no pier, numa área ao lado da área do evento, mas curiosamente o portão que dá acesso ao mesmo fica fechado, deixando duas opções aos proprietários dos veículos e seus acompanhantes: pegar uma van “gratuita” (paga-se vinte reais/dia para deixar o carro num estacionamento na qual não há um funcionário após certa hora da noite) até a entrada do evento ou a caminhar cinco minutos à beira do viaduto, boa parte sem calçadas, até a mesma. Seria tão mais fácil abrir o portãozinho, mas vai saber. Depois de certa hora da noite também não tem van de volta, ou seja, gasta-se um táxi ou caminha-se debaixo do viaduto até o estacionamento (no nosso caso, com todo equipamento de trabalho). “Xinístro”, como diriam por aqui.
Hora de jantar. Mas onde e o quê comer numa sexta-feira, uma da manhã? Oras, no Café Lamas, bar/restaurante inaugurado há 135 anos. Isso mesmo, um século, três décadas e meia servindo o auto-intitulado melhor fillet mignon do rio até altas da noite. Pulei o fillet, mas experimentei os também famosos bolinhos de bacalhau e eles realmente justificam a fama. Gasta-se um dinheiro razoável, mas pode-se comer bem na madrugada carioca.
Já no silêncio da madrugada na Urca, um som desumano e assustador regularmente rasgava a noite: era o ronco do vizinho do primeiro andar, algo surpreendente mesmo para quem cresceu com um pai bem roncador. Sérgio, nosso anfitrião, fora para Niterói visitar os parentes que tinha em comum com Thi N., por isso a casa estava vazia quando chegamos. Mas o cansaço era maior e optamos por dormir ao invés de fazermos uma festa cheia de modeletes de topless. Até porque o som do ronco poderia traumatizar tão jovens garotas.
Neste dia (ou no seguinte), no almoço, fiz esse videozinho:
Dias 03 & 04 – Quando os tais dias da semana se mostram mero contrato social
Acordamos e fomos ao mercado. Legumes e verduras caros, com pouca opção. Cinco reais um pacotinho com quatro alhos não muito bonitos. Arroz, lentilha, couve-flor, beterraba e Jimi Hendrix no talo pra água ferver melhor. Atrasados, comemos às pressas e partimos em direção ao pier. Thi N. me deixou lá e foi pra Niterói, mas quase lá teve que retornar resgatar a câmera que usaríamos para as entrevistas. Falha grave da nossa parte.
Câmera em mãos, segunda pauta: “24 Horas com Laís Ribeiro – Top recordista de desfiles no Fashion Rio 2010”. Nossa missão era seguir a garota, registrá-la chegando no evento, desfilando, correndo de um camarim para o outro, fazendo maquiagem, cabelo, comendo, relaxando e o que mais pudesse ser interessante.
Nascida em Miguel Alves, norte do Piauí, Laís tem exatos um metro e oitenta de altura, vinte anos de idade e apenas um de carreira. Grande estaque da temporada, vive atualmente em Nova York, onde divide casa com uma modelo russa. Morena simpática, cumprida e de modos simples, possui traços que se aprimoram a cada olhada, que a tornam gradualmente mais bela. Possui o característico ar frágil da maior parte das modelos novas, parecem porcelana fina prestes a quebrar, bastando para isso uma simples palavra ou olhar.
Solteira, mãe de um menino de dois anos, a garota é guerreira e vestiu 26 estilistas nesta temporada, desfilando para quase todas as marcas. A criança mora com a avó, mas em breve irá morar com ela em NY. Nos dias finais da maratona, nos camarins, seu cansaço era visível, mas, segundo ela, todo o esforço tinha como objetivo o futuro deles.
Por consequência da pauta, assisti ao desfile da marca Printing. Modelos em clima de deserto, envoltas em tecidos largos & esvoaçantes; panos preenchidos por tons terrosos (e uma ou outra estampa florida, exceto por isso) lembrando a vestimenta dos beduínos.
No dia seguinte
Dentre as muitas peculiaridades do Rio de Janeiro, como um bom paulistano, o trânsito me foi objeto de contemplação analítica. A primeira coisa que me saltou foram os táxis, sua cor e seus hábitos. Para quem está acostumados aos veículos brancos & sem-graça, chegar ao Rio e encontrar dezenas de amarelinhos por entre as faixas cariocas é no mínimo curioso. Por entre e sobre, já que boa parte deles se desloca com uma roda em cada pista — característica que, associada à sua supracitada cor — inviabiliza a não-associação entre eles e o famoso Pac-Man.
Outra coisa que salta ao olhar de um morador da Paulicéia em visita à Guanabara é a quantidade reduzida de motoqueiros; aquele som buzinfernal que permeia a trilha das grandes avenidas paulistas surge de vez em quando, em atos esporádicos & isolados. Em compensação, os motoristas de ônibus parecem todos que estão indo tirar a mãe da forca. Correm velozmente, fecham carros e rasgam por entre as faixas, como se o que estivessem transportando fossem frangos para o abate (não que frangos mereçam este tipo de tratamento).
Mas o mais interessante de tudo que observei foi que a maioria do motoristas em solo carioca para apenas quando a luz do semáforo fica azul. Porém, os semáforos deles não são preparados para isso, possuem apenas as mesmas três cores tradicionais, com a diferença de que vermelho quer dizer “de dia, dê uma olhadinha antes de passar; à noite, siga sem pestanejar” — ou coisa que o valha.
Completando o assunto trânsito, o sistema de sinalização a meu ver tem dois trunfos a se destacar e uma melhoria a se fazer: placas com nome de ruas que, além de iluminadas, contém uma breve explicação sobre quem lhe empresta o nome é uma idéia bacana; ficam faltando aquelas placas maiores sobre os semáforos com o nome da rua que ali cruza, pois mesmo acesas, as placas cariocas exigem uma proximidade para serem lidas, o que muitas vezes atrapalha a movimentação de quem está seguindo coordenadas.
Chegamos ao nosso Q.G e ficamos sabendo sobre alguma festa em algum lugar na qual talvez rolassem alguns convites. Jantamos e começamos a beber algumas cervejas (eu mais do que Thi N., já que ele é o motorista da dupla). Conversávamos sobre os mais diversos assuntos quando aquele som estarrecedor mais uma vez rasgou o silêncio da Urca: era ele, o Roncador Maldito, ser abissal que se apossava toda noite do corpo do pobre vizinho do primeiro andar. Para provar o que estou dizendo, tentei capturar tal som gutural com meu gravador de som do celular, mas a baixa fidelidade do aparelho transformou aquele estrondo num simples respirar a là Predador/Darth Vader.
Passavam das três da manhã quando resolvemos enfrentar a preguiça que nos invadia — saímos de casa rumo à tal balada, que estava acontecendo num local chamado Scalla, uma tradicional casa noturna carioca. Lá chegamos, pegamos os “vips” e entramos. Os tais vips davam acesso a um andar superior, que nada tinha de diferente dos outros exceto a altura — pra mim, convite vip é aquele que te permite no mínimo beber de graça; vip para transitar pelo espaço é mera segregação.
Balada no mínimo bizarra; desde meus 18 anos que eu não ia a um lugar como aquele: cheio, muito cheio, de pessoas iguais: bêbados bobos tentando puxar pelo braço garotas de plástico que pelo meio da música ruim & da fumaça desfilavam. E bota ruim na música — um 90′s pop dance da pior qualidade; pela primeira vez senti saudade daqueles hinos oitentistas que tanto renego — quase qualquer coisa seria melhor do que aquilo que estava tocando. Depois de meia-hora Thi N. disse “vamos?”, ao que respondi “vamos, mas já que viemos aqui, temos o dever antropológico de passar por ali”, apontando para o meio do andar mais inferior do ambiente. Cruzamos —obviamente não sem sermos interrompidos graças à famigerada barba do meu companheiro de aventuras — e voltamos para a Urca, onde ficamos bebendo e proseando até quase sete da matina. Lembro que meu último pensamento a caminho do banheiro foi — parafraseando Black Alien —algo como “enquanto lá fora nasce outro dos domingos, aqui dentro chora Charles Mingus”.
Dias depois descobri que o Scalla é famoso pelo “gala gay” durante o carnaval e que a tal festa na qual fomos se chama “I Love Pop” — e estas duas informações me fizeram entender muita coisa.
Outros dias seguintes
Acordamos atrasados, levamos marmita pro Fashion Rio, visitamos a Liza — que achou numa caçamba de entulho uma das coisas mais legais dos últimos tempos: uma carcaça de piano, que fica de pé encostada num canto da sala dela, propiciando ótimas experiências sonoras. Praticamente qualquer interação com as cordas (ele está sem teclas e deve ser tocado como uma espécie de harpa) produzem blems, blons, tarans y otros sonidos muy interessantes, dignos de películas lynchianas; mas como já era tarde no dia em que a visitamos, não pudemos incomodar muito os vizinhos. Dias depois, antes de partirmos, passamos nos despedir e, por mero fruto do acaso, compusemos o “Concerto para Destroços de Piano à Seis Mãos”.
Nos dias seguintes, continuamos sendo sempre os últimos a deixar o pier, gravamos a última pauta no Spa dentro do hotel Fasano — super chique e agradável, no qual fomos super bem tratados (apesar de não termos ganhado massagens).
Nos dias seguintes, os motoristas do Rio continuaram me impressionando — limite de velocidade para eles continuou sendo lenda — e a urbanização carioca continuou me encantando cada dia mais. é incrível como o respeito para com os elementos espaciais antigos — tanto os humanos, como as as construções coloniais, quanto as naturais (mais especificamente, as árvores e a vegetação como um todo) — cria uma nova forma de interagir com a cidade. Não que prédios e árvores seculares não tenham sido destruídos, mas isto aconteceu em escala muito menor do que pode ser observado em São Paulo. Caminhar por calçadas pavimentadas respeitando os seres vegetais ali presentes, visitar lugares como a Biblioteca Nacional, o Teatro Municipal e construções do gênero me fizeram refletir muito sobre a tal “modernização” pela qual a sociedade passou no século passado, principalmente a partir da sua segunda metade.
O rápido desenvolvimento financeiro-industrial por qual São Paulo passou fez (faz) muito dinheiro circular pela capital paulista — que gera ganância, o quê, por sua vez, gera miopia & estupidez: a cidade foi praticamente reconstruída cerca de três vezes ao longo dos séculos XIX e XX, tendo sua história espacial toda destruída em nome do “progresso” — vejo o rio Tietê como um ótimo (ou péssimo) exemplo disto: todo um ecossistema assassinado, um ponto turístico — e até mesmo uma via de transporte em potencial — destruído de maneira insensata, sem qualquer preocupação temporal — tanto com o passado quando com o futuro.
Assim como os casarões da Av. Paulista: dizem que, na noite anterior ao tombamento (ou coisa que o valha) dos mesmos, inúmeras sabotagens foram realizadas; dizem que as estruturas de vários deles foram abaladas a ponto de os condenarem à destruição, permitindo assim a construção de horríveis caixas de concreto (e posteriormente de vidros/espelhos). Hoje, restam a Casa das Rosas e mais uma ou duas construções antigas — estas envoltas em brigas judiciais entre empreiteiros querendo mais construções multimilionárias & desarmônicas, e preservadores que tentam manter vivo o (pouco) que resta do espírito de uma época.
Este texto se alongou, o tempo dilatou e muito aconteceu entre a linha acima e esta; alguns pensamentos que aqui seriam abordados partiram, novos chegaram e nada mais disso existe.
Só me resta terminar este texto dizendo que o Rio de Janeiro — dependendo de onde se olha —continua lindo; o mundo fashion, não.
Um dia Liza M. encontrou numa caçamba de lixo, nas proximidades de sua casa, no bairro das Laranjeiras no Rio de Janeiro, um piano, ou melhor, os destroços de um piano. Com ajuda de alguns passantes, a jovem levou-o escadas acima até a sua sala, onde ele foi cuidadosamente posicionado. À primeira vista, a carcaça pianística lembra uma estranha harpa presa a um suporte; uma estranha obra composta por cordas, metal & madeira.
Visitando-a dias depois, maravilhado com aquela peça, antes de partir resolvi registrar alguns acordes daquele incrível instrumento para eventualmente utilizá-los em alguma trilha sonora ou coisa que o valha. Sempre lo-fi, saquei meu celular, ativei o gravador de áudio do mesmo e comecei a puxar algumas cordas. Quase que por instinto, Liza M. e Thi N. se juntaram a mim e juntos, sem qualquer combinação prévia ou mesmo momentânea, começamos a executar uma peça musical aleatória, guiados apenas por nossos feelings & intuições.
Durante quase 30 minutos, epifanicamente, sem trocar qualquer palavra, apenas olhares, exorcizamos nossos demônios interiores numa espécie de catarse musical. Não só as cordas, mas também as partes de metal e madeira serviram como meio para nossa expressão primitivamente musical.
Para quem não presenciou, a magia do momento dificilmente poderá ser sentida em sua totalidade; na verdade, talvez pela baixa fidelidade da gravação e alto nível de experimentalismo, seja difícil até mesmo ouvir a peça em sua totalidade. Ouvidos sensíveis também deverão evitar a obra, mas se mesmo assim alguém quiser arriscar, recomendo a utilização de fones de ouvido para um melhor aproveitamento; se em algum momento a áudio lhe perturbar de mais, tire o fone e volte algum tempo depois —a obra — como toda que se preze — tem seus altos & baixos, seus erros & acertos.
Deliciem-se (ou não) com o “Desconcerto para Destroços de Piano a Seis Mãos”:
“Desconcerto para Destroços de Piano a Seis Mãos”